Primeiro debate virou troca de acusações

O primeiro debate entre Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, e o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, começou como se esperava: os assuntos ética e dossiê Vedoin - que seria comprado por petistas para ser usado contra tucanos - dominaram o confronto. A primeira pergunta de Ricardo Boechat sobre corte de gastos foi praticamente ignorada para que estes assuntos entrassem logo no embate. Durante todo o tempo, Alckmin, olhando para as câmeras, atacava Alckmin. E Lula, olhando para o candidato, se defendia.

Alckmin pedia o tempo todo que Lula explicasse de onde viria o dinheiro para a compra do dossiê, de R$ 1,7 milhão. O petista retrucava dizendo que a única prejudicada pelo caso do dossiê era a sua própria candidatura. "Não sou policial sou presidente da República. O candidato deve ter saudade do tempo da ditadura em que as pessoas eram obrigadas a falar. Tudo está sendo feito, as pessoas envolvidas foram afastadas", disse.

O primeiro bloco terminou com Lula questionando o candidato tucano sobre as 69 CPIs que não foram instaladas no seu governo e perguntou: "a que preço?". Alckmin retrucou: "Quanta mentira. Como Lula mudou.... As CPIs (no governo Lula) só saíram porque o Roberto Jefferson contou a verdade para o Brasil".

O clima esquentou no segundo bloco, Alckmin disse que Lula precisava ler suas perguntas e respostas e, ao ser atacado por Lula, dizia: "Quem escreveu aí, escreveu errado". O petista se defendeu dizendo: "Não tem problema ler, não fiquei decorando, não fiz curso de psicodrama". Os assuntos finais do bloco anterior foram retomados. Alckmin continuou atacando com o dossiê e Lula com a instauração das 69 CPIs.

Na metade do segundo bloco, Lula foi o primeiro a chamar o debate para a discussão de assuntos que envolvessem política econômica e política social. Mas Alckmin não aceitou o "convite" e voltou a falar dos esquemas de corrupção que foram descobertos no governo Lula. Constrangido com o fato apontado por Alckmin, sobre a leitura de suas perguntas e respostas, o petista novamente chamou o debate para plano de governo e criticou a atuação de Alckmin na administração da Febem.

O primeiro direito de resposta foi pedido no segundo bloco. Lula reclamou que foi chamado de mentiroso. Alckmin ameaçou pedir também. O direito de resposta não foi autorizado pela produção do programa e a intenção de Alckmin ficou por isso mesmo. A irritação de Lula ficou cada vez mais evidente, principalmente quando Alckmin questionou o uso do cartão corporativo. "Não seja leviano, Alckmin, não seja leviano", disse Lula. O tucano também se alterou e respondeu alto e fora do microfone: "Respeito!, Respeito!"

O terceiro bloco foi marcado por discussões sobre problemas do governo de ambos. Alckmin se defendeu sobre a violência no Estado de São Paulo, mas Lula destacou que ele cortou 15% dos gastos em segurança. Na política externa, Alckmin disse que por trás "desse palavrório todo há um presidente fraco", quando destacou os problemas enfrentados pela Petrobras na Bolívia. Esse foi um dos momentos em que a platéia se manifestou, quando Lula disse: "É difícil discutir com alguém que pensa que ainda estamos na Guerra Fria. Se o Bush tivesse o bom senso que eu tenho, não teria feito a guerra do Iraque. Ele pensava que nem você, Alckmin". Eles falaram ainda de energia e estradas.

Jornalistas questionam

A partir do quarto bloco, o questionamento aos candidatos foi feito pelos jornalistas Franklin Martins, Joelmir Beting, Fernando Vieira de Mello e José Paulo de Andrade. Novamente o assunto ética voltou ao debate. Alckmin chamou Lula de "arrogante" e disse que o "mensalão foi feito dentro do Palácio do Planalto". "É uma lista telefônica de corrupção", acusou.

A pergunta foi sobre maioridade penal, mas Alckmin falou que venderia o aerolula e construiria cinco hospitais. Daí para frente voltaram a falar de corrupção. Olhando para a câmera, disse: "Qual é autoridade moral para ele vir falar com essa lista de corrupção no seu governo?". Lula respondeu: "Com a autoridade de quem descobriu que 60% dos prefeitos envolvidos (com sanguessugas) eram do PFL e do PSDB, a autoridade de quem sabe como a sociedade reage quando as denúncias não são apuradas".

O embate neste bloco terminou com uma discussão sobre crescimento econômico. Alckmin disse que governo lula é "governo tartaruga". Lula rebateu com uma frase de efeito: “A qualidade de vocês é privatizar, privatizar, privatizar. A nossa é investir no social, investir no social, investir no social.” Para o tucano, os juros altos do Brasil significam “o risco Lula” e explicou: “Precisa ter os juros lá em cima, porque não tem credibilidade.” Ele citou várias obras de grande porte que Lula anota como realizações de seu governo e que até agora não saíram do papel. Lula, na réplica, confirmou que várias delas só começarão no próximo ano e explicou por quê: “Essas coisas tem um tempo de maturação”.

Nos comentários finais, Lula agradeceu os votos recebidos e disse: "até o próximo debate". Alckmin usou o tempo para novamente dizer que participou de todos os debates e destacou seu principal projeto de crescimento econômico. O debate durou pouco mais de duas horas. (Agência Estado)

Publicado em: 09/10/2006