Os sinais do “novo normal” na política pernambucana

Por Felipe Ferreira Lima*

Norberto Bobbio, na emblemática obra “O Futuro da Democracia”, já apontava que viver num regime democrático é estar em permanente estado de crise. Crise de ideias, de visões ideológicas e dos movimentos políticos, todas naturais em razão da pluralidade de embates entre crenças, fatos e interesses que envolvem as aspirações das sociedades modernas.

Por isso, o bom observador do cenário democrático é sempre aquele que consegue extrair os sinais necessários a partir dos principais ‘players’ dos duelos eleitorais nos grandes centros urbanos para, enfim, compreender os verdadeiros anseios daquela que é a ‘senhora’ de todas as democracias: a maioria.

Tradicionalmente, no cenário pré-eleitoral de Pernambuco, os duelos municipais no Recife e em Caruaru ditam o sentimento político que acaba determinando os anseios do eleitorado nos anos seguintes. Nesses campos de batalha, o primeiro sinal de tendência da vontade da maioria está por entre as movimentações para definição dos candidatos. É na dança dos postulantes que confirmamos o ritmo das preferências.

No Recife, nota-se, no seio do duelo, um embate entre os modelos tradicionais e modernos de se fazer política. Os primos João Campos e Marília Arraes, embora momentaneamente afastados, emplacam candidaturas que carregam a tradicional combinação da força familiar e o peso da máquina ou estrutura partidária, até agora, infalíveis nos últimos pleitos eleitorais pernambucanos. Mas é na oposição que se nota um movimento diferente, especialmente nas candidaturas de Mendonça Filho e da delegada Patrícia Domingos.

O ex-ministro da Educação tem um arsenal de serviços prestados ao Recife e a Pernambuco no período em que esteve à frente do MEC. Embora não tenha máquinas na mão, tem o nome ‘fresco’ na memória do recifense que, diga-se de passagem, lhe deu volumosa votação em 2018, quando postulou uma vaga ao Senado. Assim, Mendonça revela-se ao eleitor como uma opção segura para uma possível mudança.

Mas a novidade mesmo desponta na figura de Patrícia Domingos. Sem padrinhos ou histórico político, a delegada foi catapultada pelo discurso anti-corrupção, cujo canhão foi seu período à frente da extinta Delegacia de Combate à Corrupção. Surfando na onda de rejeição à classe política, que marcou a ascensão do ‘lavajatismo’, a delegada se engajou nas redes sociais para lançar críticas contundentes ao governo Geraldo Júlio, fortemente atingido pelas recentes operações da Polícia Federal envolvendo a Prefeitura.

Em Caruaru, a mesma combinação ‘força familiar x peso da máquina’ é o motor propulsor da candidatura da prefeita Raquel Lyra que, na prática, não conseguiu imprimir o discurso que a elegeu em 2016. A bandeira do ‘novo’ (ou da ‘mudança’) não conseguiu mais do que a eleger, e ao passar do mandato acabou se igualando administrativa e eleitoralmente ao estilo dos antigos adversários, Tony Gel e Zé Queiroz, ambos com consideráveis restrições para ir à campo neste ‘duelo pandêmico’.

Isso fez com que o modelo moderno de fazer política em Caruaru ficasse na oposição e, coincidentemente, também na figura de um delegado, o hoje deputado estadual Erick Lessa. Com um mandato recheado de ações legislativas de destaque, o Delegado Lessa despontou em 2016 através de um discurso fincado na segurança pública, que o fez beirar o segundo turno, emplacando a 3ª colocação, numa campanha escassa em recursos, infinitamente menos custosa que os demais adversários, que o impulsionou direto para a Alepe em 2018.

Erick e Patrícia são os sinais das mudanças no estilo de fazer política e no sentimento do eleitorado pernambucano. É preciso compreender e interpretar o novo movimento que foi a chegada de ambos como principais ‘players’ no xadrez das políticas locais. Os seus respectivos resultados eleitorais, muito mais do que números, representarão o possível ‘novo normal’ do futuro da política pernambucana.

*Mestre em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Lisboa, advogado, professor universitário e presidente do Instituto Egídio Ferreira Lima

Publicado em: 03/08/2020