Pesquisas eleitorais telef├┤nicas

Prezado Magno,

Inicialmente, registro o apreço a esse combativo jornalista e o seu prestigiado Blog.

Essa semana você publicou uma pesquisa eleitoral de intenção de voto, em Olinda, telefônica, sendo a segunda nesse modelo que publica, ante o período de pandemia. A empresa que realizou a pesquisa tem raízes baianas e você me relatou, hoje pela manhã, em um telefonema, que não conhece pessoalmente o estatístico, o pesquisador José Carlos Martins Leite, cuja empresa Potencial é uma sociedade comercial EIRELI de somente um dono.

A pesquisa Instituto Opinião/Blog do Magno publicada, em 24/10/2019, feita presencialmente, parceria exitosa desse Blog, trouxe o seguinte cenário, à época.

“Na primeira pesquisa para prefeito de Olinda faltando menos de um ano para as eleições de 2020, o prefeito Professor Lupércio (SD) aparece na dianteira com 39,4% das intenções de voto, percentual que não garante sua reeleição em primeiro turno. O levantamento aponta, também, que o adversário mais competitivo das oposições continua sendo o advogado Antônio Campos (sem partido), que aparece em segundo lugar, com 14,4%. O deputado João Paulo (PCdoB) vem em seguida com apenas 4,8%, seguido de Jorge Federal (PR), com 3,2%, Pedro Mendes (PSB), com 1,8% e o Coronel José Lopes (PRTB), com 1,2%. Brancos e nulos somam 24,4% e indecisos, 10,8%.

O Instituto Opinião sondou, também, a rejeição. O prefeito aparece na dianteira. Dos entrevistados, 15,8% disseram que não votariam nele de jeito nenhum, enquanto 11,2% se manifestaram contrário a Campos. João Paulo tem 5% de rejeição, Jorge Federal 3,4%, José Lopes 2,8% e Pedro Mendes 2,6%”. Pode ser conferida no link: http://blogdomagno.com.br/ver_post.php?id=206019

A pesquisa agora publicada, registro TSE, nº 04565/2020, feita por telefone, traz o seguinte cenário, cuja base de dados já solicitamos para uma verificação, conforme permite a legislação eleitoral, daí a necessidade de registro das pesquisas para o amplo acesso: 

“Lupércio aparece na dianteira com 34% das intenções de voto, mas João Paulo vem em segundo com um percentual considerável, de 21%. Antônio Campos (PRTB), que disputou a eleição passada indo ao segundo turno com Lupércio, pontua 2%, mesmo percentual de Pedro Mendes (PSB) e Gustavo Rosas (PROS). Presidente da Câmara, o vereador Jorge Pontual (PSL) tem apenas 1%. Armando Sérgio, do Avante, Celso Muniz, do MDB, e Júnior Lenine, do Psol, não pontuaram. Brancos e nulos somam 17% e 21%.

No quesito rejeição, Antônio Campos aparece na dianteira. Dos 600 entrevistados, 58% disseram que não votariam nele de jeito nenhum. Em segundo lugar aparecem empatados o prefeito Lupércio, Jorge Federal e Armando Sérgio, com 47%. Por ordem, dão sequência João Paulo, com 42%, Pedro Mendes, com 38% e Gustavo Rosas, com 36%.  O menos rejeitado é Celso Muniz, com 31% e Lenine, com 32%.

A pesquisa testou também o nível de conhecimento dos candidatos perante o eleitorado de Olinda. Apenas 2% disseram não ter conhecimento que o prefeito é Lupércio, enquanto João Paulo é desconhecido por 10%. Os mais desconhecidos pelo eleitorado são, pela ordem, Celso Muniz e Lenine, com 64%, seguidos de Gustavo Rosas, com 57%, e Pedro Mendes, 56%. Entre os entrevistados, 48% disseram não conhecer Armando e 43% Jorge Federal”. Pode ser conferida no link: http://blogdowagnergil.com.br/vs1/2020/07/09/joao-paulo-ameaca-reeleicao-de-lupercio-em-olinda/

No relatório da pesquisa da Potencial Pesquisa, o somatório da espontânea dá 101 pontos, entre outras inconsistências.

A metodologia da pesquisa fala que são entrevistas telefônicas e que a amostra foi segmentada por cotas de sexo e faixa etária baseadas nas informações do TSE-TRE/PE, de forma representativa do universo de estudo de eleitores de Olinda, num total de 600 entrevistas, distribuídas proporcionalmente pelas regiões políticas-administrativas de Olinda. A margem amostral de erro é de 4% para mais ou para menos. Ou seja, 8 pontos.

Qual o critério da aquisição da listagem telefônica e se os telefones foram fixos ou móveis, já foi indagado a Potencial. 

Outro aspecto é a utilização do teorema do limite central e da chamada Lei Geral dos Grandes Números, que permite uma amostra mínima aceitável de até 30 telefonemas, indica baixa precisão da pesquisa, conforme nota explicativa da mesma.

Conforme você hoje me relatou, você recebeu um relatório e em cima dele fez a informação e a leitura política, cabendo a empresa de pesquisa a responsabilidade sobre os dados. Contudo, alerto a esse combativo jornalista a ter mais rigor quanto às pesquisas eleitorais telefônicas e suas possíveis inconsistências, ante a responsabilidade solidária do seu Blog e do seu nome de jornalista.

O cientista político Antônio Lavareda, em seus comentários sobre pesquisas, diz que as pesquisas telefônicas têm 10 vezes mais percentual de erro do que as presenciais, face a face. O IPESPE foi uma das pioneiras em entrevistas telefônicas seguindo os padrões americanos. Nesses padrões, leva-se em consideração também capturas de atitudes políticas, daí a importância fundamental, do plano de amostragem da pesquisa, para não gerar distorções. Especialistas tem feito críticas as últimas pesquisas do Datafolha, quanto a esse aspecto, pois pode gerar distorções nas pesquisas, nem sempre intencionais, mas por erros metodológicos e técnicos.

As entrevistas telefônicas certamente feitas por telefone fixos ou celulares, especialmente quanto a esses últimos, dão pouca segurança para a margem amostral e sua confiabilidade. Uma entrevista face a face dá uma maior segurança ao entrevistador e confiabilidade a pesquisa, pois o eleitor está na sua frente. Pode-se estar se entrevistando um eleitor do Recife por telefone celular e este está respondendo uma pesquisa de Olinda, pois o entrevistador não está face a face. Lembre-se que um dos candidatos, que seria a novidade, foi duas vezes prefeito do Recife. Na última pesquisa estava com 4,8% e agora com 21%. Teria influenciado telefones de Recife, ante a pouca margem de segurança da verificação do entrevistado?

Somente cerca de 30% da população tem telefone fixo e cerca de 95% da população tem telefone móvel, pelo que certamente foi utilizado pesquisas telefônicas por celulares, nessa pesquisa, gerando pouca segurança no plano amostral.

A pesquisa tem o evidente intuito de fazer ressurgir o PCdoB, em Olinda. Agora, com a candidatura de João Paulo, com o apoio da ex-prefeita e atual vice-governadora Luciana Santos, como o antagonista do Professor Lupércio, que também não teve uma boa performance na pesquisa. A minha pretensa elevada rejeição e baixo número de intenção de votos, difere frontalmente da última pesquisa presencial, publicada nesse Blog, em novembro de 2019, que foram 14,4 de intenção de votos e 11,2 de rejeição. Agora, teria 2% de intenção de votos e teria estranhamento aumentado cinco vezes a minha rejeição, para 58%. Está aí a minha modesta leitura política da estratégia perpetrada, que você também pode ter sido vítima de uma pesquisa com graves inconsistências.     

O intuito da presente carta a esse Blog é fundamentalmente criar um debate e um maior rigor para as pesquisas eleitorais telefônicas no período de pandemia, ante o início do processo político eleitoral, com a divulgação do novo calendário eleitoral, evitando-se distorções em seus resultados e impactos errôneos em processos políticos.

Antônio Campos – advogado, escritor e acadêmico

Publicado em: 10/07/2020