Coluna do sabadão

A sinhá escravista

Em era de pandemia, de rastro fúnebre parece profetizado no Livro do Apocalipse, o final dos tempos, Recife vai revirando sua história pelo avesso. Não é mais aquela que nos orgulhava em modelo de gestão pública pelo resto do País, com Joaquim Francisco, numa primeira etapa, o que o levou a disputar o Governo do Estado, e numa outra Jarbas Vasconcelos, líderes no ranking dos melhores prefeitos de capitais.

Recife levanta o troféu, hoje, em outra modalidade, que nos rouba a autoestima e nos deprime: a de campeã em mortandade pela Covid-19, que jogou a cidade também para um outro plano, infelizmente o que se agiganta pela imoralidade. Dá vergonha ligar uma televisão, acessar a internet, abrir jornais, ouvir rádios, e ver a capital pernambucana mancheteada por uma Prefeitura que compra respiradores de porcos para uma gente que agoniza na rede pública do SUS.

A morte do garoto Miguel Otávio, de apenas cinco anos, que caiu do nono andar de um prédio de luxo no Recife por descuido de uma dama que o jogou no elevador e o abandonou, quando chorava com saudade da mãe, veio somar, negativamente, a esse momento de horror que a então bela e admirável Veneza Brasileira vive. José Nêumanne, jornalista do Estadão, tratou o assunto revivendo Casa Grande & Senzala, dando ao seu artigo o título de “A sinhá escravista”.

“Mirtes Santana, funcionária fantasma da prefeitura de Tamandaré (PE), levou o cãozinho da patroa, Sarí Corte Real, mulher do prefeito Sérgio Hacker, a passeio e deixou o filho Miguel Otávio, de cinco anos a seu cuidado. O garoto sentiu falta da mãe e, para não ser perturbada enquanto fazia as unhas, a primeira-dama do município onde fica a bela praia dos Carneiros levou-o ao elevador. O menino não conseguiu marcar o andar e ela apertou o botão do nono. Ao se abrir a porta, ele saiu, subiu no equipamento do ar-condicionado e caiu 35 metros. Foi socorrido, morreu e sinhô e sinhá foram ao velório chorar”, descreve ele.

“Mas imagens do condomínio, acrescenta, revelaram o crime da sinhazinha: homicídio culposo, sem intenção de matar, decretou a compreensiva polícia do partido fundado por Miguel Arraes, ícone da esquerda brasileira. E cobrou módica fiança de R$ 20 mil. Como diz o professor de Direito da USP Modesto Carvalhosa, que assinou um belíssimo artigo intitulado Racismo e amor na página 2 do Estadão, neste País não há discriminação, mas servidão. Foi o que ocorreu no edifício luxuoso, confirmando consequências da forma como aqui se aboliu a escravidão, há 132 anos, apontadas pelo genial abolicionista Joaquim Nabuco, nascido no engenho Massangana, no mesmo Pernambuco”.

O parentesco – A sinhá escravista, como definiu Nêumanne Pinto, tem sobrenome Corte Real, mas não é irmã do ex-deputado federal e ex-presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco, Jorge Corte Real. O seu marido, o prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, este sim, é sobrinho de Jorge, filho de um irmão do ex-presidente da Fiepe. É que o prefeito adotou o Hacker por ser representante de uma elite que domina o poder em Tamandaré por muitos anos, influenciando também em outros municípios do Litoral Sul do Estado. Tudo isso levou muita gente a associar ela a Jorge Corte Real.

Protesto – A morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, na última terça-feira, após cair do 9º andar do condomínio de luxo Píer Maurício de Nassau, conhecido como Torre Gêmeas, localizado no bairro de São José, área central do Recife, causou comoção nacional. Em busca de justiça, manifestantes se reuniram com os familiares da criança e fizeram, ontem, um protesto em frente ao local da tragédia. A dona do apartamento onde a mãe de Miguel trabalhava, Sarí Mariana Costa Gaspar Corte Real, foi autuada por homicídio culposo (quando não há intenção de matar), mas liberada ao pagar fiança de R$ 20 mil. A concentração começou em frente ao Tribunal de Justiça, situado na Praça da República, bairro de Santo Antônio, e em seguida o grupo saiu em direção ao prédio onde Miguel morreu.

Nota do prefeito – Por meio de nota, a Prefeitura de Tamandaré informou, ontem, que o prefeito Sérgio Hacker Corte Real se encontra "profundamente abalado" pela morte do garoto Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos. O garoto morreu após cair do 9º andar do prédio em que o prefeito mora com a esposa, Sarí Corte Real, que foi autuada por homicídio culposo – quando não há intenção de matar – por deixar a criança sozinha no elevador momentos antes do acidente. Ainda na nota, a Prefeitura ressaltou que Hacker vai prestar informações aos órgãos competentes "no momento próprio e de forma oficial".

A viúva paga – A empregada doméstica Mirtes Renata Santana de Souza, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, consta como funcionária da Prefeitura Municipal de Tamandaré, segundo informações apuradas e confirmadas ontem por este blog. O garoto morreu ao cair do 9º andar de um prédio no Centro do Recife. A informação sobre a mãe da criança está registrada no cadastro da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), órgão ligado ao Ministério da Economia. Essa relação contratual da doméstica mostra que o prefeito faz da sua casa uma extensão do seu gabinete. Certamente, outros fantasmas devem constar na folha da Prefeitura.

CURTAS

INQUÉRITO – A Promotoria de Justiça de Tamandaré instaurou inquérito com a finalidade de apurar possível prática de improbidade administrativa do prefeito Sérgio Hacker. O inquérito foi motivado pela divulgação, através da imprensa, de que Mirtes Renata Santana de Souza, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, figura como funcionária fantasma da Prefeitura de Tamandaré. O MPPE já constatou, através de busca no portal da transparência municipal, que a senhora Mirtes Renata figura na folha de pagamento do município desde fevereiro de 2017. A Promotoria de Justiça de Tamandaré expediu ofício requisitando à chefia de gabinete da Prefeitura que informe, no prazo de três dias úteis, dados funcionais sobre a servidora, como cargo, função, método de controle de ponto, local de lotação, dentre outros.

DESABAFO DE MÃE – "Infelizmente, faltou um pouco de paciência dela para tirar o meu filho de dentro do elevador. Se ela tivesse um pouquinho mais de paciência, se ela tivesse pegado ele pela mão, ao invés de ficar só falando, pegasse ele pela mão e tirasse [ele do elevador], meu filho tava hoje comigo", desabafou a empregada doméstica Mirtes Renata Santana da Silva, mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, sobre a patroa, que foi autuada por homicídio culposo. A criança morreu após cair do 9º andar do condomínio de luxo Píer Maurício de Nassau, conhecido como Torres Gêmeas, no bairro de São José, na área central do Recife, onde a mãe trabalhava como empregada doméstica.

CHORO DE PAI – A tristeza que tomou conta da mãe do menino Miguel Otávio Santana da Silva não foi menor para o pai. Indignado com a perda do filho, ele cobrou mais investigações sobre o caso e quer que a dona do apartamento onde a mãe do menino trabalhava explique tudo o que aconteceu. ‘’A gente vai correr atrás (de justiça). Hoje foi meu filho, estou com dor, mas vamos correr atrás e descobrir o que houve. Vamos querer saber tudo. A patroa dela tem que explicar. Tem que explicar por que deixou o menino só? Por que não deixou o (filho) dela só e deixou o meu?’’, questionou.

Perguntar não ofende: As torres gêmeas do Recife reeditaram um capítulo de Casa Grande & Senzala?

Publicado em: 05/06/2020