Coluna da quinta-feira

Múcio pode ser a surpresa de 2022

Na live pelo Instagram deste blog, terça-feira passada, o presidente do Tribunal de Contas da União, José Múcio Monteiro, não foi tão enfático nem explícito o suficiente,  provavelmente pelo posto que exerce hoje, mas  deixou fluir nas entrelinhas que tem , sim, projeto para regressar à vida partidária após seu afastamento da corte, que, segundo ele revelou, pode se dar antes mesmo do prazo estabelecido por lei com base na aposentadoria aos 75 anos.

"Eu não posso ter projeto político. Se eu disser que tenho, perco minha isenção. Estou conversando sobre antecipar minha saída do Tribunal, porque acho que a corte precisa ter uma renovação. Já posso me aposentar. Tenho vontade de voltar e devolver aos meus filhos e netos o tempo que devo a eles”, disse Múcio, já no final da entrevista, ao ser indagado sobre o seu futuro e se tinha pretensão ainda de disputar o Governo do Estado.

José Múcio Monteiro abordou com clareza e coragem todos os assuntos em pauta, batendo forte na radicalização entre os protagonistas da crise institucional, que ao invés de procurarem uma janela para o entendimento jogam mais combustível ainda na fogueira ardente das vaidades e da ganância do poder, esquecendo o fundamental, que é cuidar e proteger o povo brasileiro da grave crise sanitária que há tirou a vida de 30 mil brasileiros e representa uma grande ameaça à humanidade.

"Está faltando humildade, solidariedade, temos que procurar uma agenda comum que não nos distancie. Está faltando uma agenda de solidariedade. Nós temos um problema político maior do que a pandemia. Temos que gostar da canção e não do cantor. Há uma radicalização de alguns setores da imprensa que têm seus interesses. O Brasil é maior do que isso. Não é concurso de quem é mais brabo. Sou favorável que todos se entendam para enfrentarmos o problema. Tem gente passando fome. Vai ter uma quantidade enorme de desempregados. Alguém vai precisar sustentar os que estão sentindo falta de ar, os desempregados pela tecnologia", advertiu.

Ministro da Articulação Política do ex-presidente Lula, por quem foi nomeado ministro do TCU, José Múcio está na vida pública desde os anos 80. Eleito prefeito de Rio Formoso em 82, nem chegou a assumir, “sequestrado” pelo ex-governador Roberto Magalhães para dirigir a Celpe e depois a Secretaria de Transportes. Engenheiro, revelou-se um grande articulador político e gestor público, o que o credenciou a ser escolhido o “Cristo” para enfrentar o imbatível Miguel Arraes nas eleições para governador em 86, depois de Arraes voltar como mito, quase um santo sem pecado original do exílio.

Na Câmara Federal, exibiu sua vocação de bombeiro por cinco mandatos, foi líder partidário, líder do Governo e um dos mais credenciados interlocutores entre o Legislativo e o Executivo. Se vier a disputar o Governo de Pernambuco na sucessão de Paulo Câmara, em 2022, pode se revelar como a grande surpresa pelo deserto de lideranças no Estado com o vácuo aberto pela morte do ex-governador Eduardo Campos, o último nome de projeção nacional como é José Múcio.

Quem é ladrão – Perguntado ao longo da live se estava envergonhado com a presença do Recife nas páginas policiais pelos escândalos decorrentes das compras superfaturadas e imorais do prefeito Geraldo Júlio, objeto de uma ação da Polícia Federal na semana passada, o presidente do Tribunal de Contas da União deu a entender que está desapontado e foi duro com quem está pegando dinheiro da Covid-19 para desviar, quando seria para salvar milhares de vidas. “Eu tenho muito medo de quem aponta sem provar. É ladrão quem se aproveita do dinheiro público.  Quando quem faz isso é amigo, a gente diz que é sabido, mas é ladrão. Precisamos ser mais duros. O vírus da corrupção foi retroalimentado com essas compras públicas", afirmou.

Cadê a ABIN? – O Governo Bolsonaro já pode se inscrever para o Guines Book, o Livro dos Recordes: o presidente do Banco do Nordeste, Alexandre Borges Cabral, descoberto com um papagaio na justiça de R$ 2,2 bilhões, só durou 24 horas no cargo. Isso significa, trocando em miúdos, que a ABIN – Agência Brasileira de Inteligência – virou letra morta no Governo Bolsonaro. Por ela, são passados verdadeiros pentes finos nas fichas de indicados para ocupar cargos do primeiro ao último escalão. O Banco do Nordeste estava na cota do PL, de Valdemar Costa Neto, mas o partido não conseguiu indicar alguém da sua confiança para o cargo.

Guedes bancou – O Palácio do Planalto decidiu repensar a nomeação de Alexandre Borges após o jornal O Estado de S. Paulo revelar que o escolhido é alvo de uma apuração, conduzida pelo Tribunal de Contas da União (TCU), sobre suspeitas de irregularidades em contratações feitas pela Casa da Moeda durante sua gestão à frente da estatal, em 2018. O prejuízo é estimado em R$ 2,2 bilhões. O nome de Cabral foi indicado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, na tentativa de evitar uma indicação do Partido Liberal (PL), sigla liderada pelo ex-deputado Valdemar da Costa Neto, condenado no mensalão. Segundo fontes palacianas, o nome de Cabral não foi uma indicação política.

Plano oco – Qual foi a mente “iluminada” a qual o governador Paulo Câmara (PSB) recorreu para elaborar o plano de retomada da atividade industrial? Nenhum setor recebeu de bom grado. “Foi um presente de grego, vai agravar ainda mais a crise em todos os segmentos”, diz o presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco, Ricardo Essinger. Segundo ele, o Governo não teve iniciativa nem abertura para discutir uma proposta para produtiva e de efeitos positivos. Para o empresariado, o plano é lento e confuso. Vinte empresários já procuraram a Fiepe com sugestões para o Governo com ênfase para um planejamento viável e duradouro. Já as prefeituras de Jaboatão, Cabo e Petrolina resolveram não entrar nessa barca furada, adotando medidas próprias e mais seguras de abertura do comércio. Isto mostra que, além de não saber liderar, Paulo e Geraldo não têm humildade para escutar.

CURTAS

FALHAS PRIMÁRIAS – Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil, Érico Furtado Filho, algumas questões não ficaram claras no plano do Governo para os representantes do segmento, que deve retomar as atividades na próxima segunda-feira, com 50% de sua capacidade e com horário diferente do tradicional: das 9 às 18h, em vez das 7 às 17h. De acordo com ele, uma das dúvidas é sobre o efetivo que trabalha nas quatro atividades liberadas desde o início da pandemia pelo governo: obras públicas, obras privadas que combatem a pandemia, obras de concessionárias de serviços públicos e obras de grave e iminente risco.

FRUSTRAÇÃO – O cronograma de flexibilização das atividades econômicas no Estado na pandemia da Covid-19 também não agradou à Associação Brasileira de Lojistas de Shoppings (Alshop) nem à Câmara de Dirigentes Lojistas do Recife (CDL). Representantes das duas instituições estão frustrados com a falta de datas para retomada das atividades porque isso compromete o planejamento. "O Governo nos frustrou porque precisávamos ter uma data efetiva. O processo de entrega ainda é muito novo no cenário do varejo e, de fato, alcança muito bem o setor de alimentação, mas os outros setores ainda estão muito aquém da exigência desse novo processo de vendas. Por isso, a data é importante para que os lojistas possam se preparar", afirmou o presidente da Alshop, Ricardo Galdino.

HOJE COLLOR, TERÇA GILMAR – O ex-presidente Fernando Collor de Melo, hoje senador por Alagoas (PROS), é o convidado da live de hoje pelo Instagram do blog, às 19 horas, pelo Instagram. Em pauta, a crise nacional. Depois de requerer licença e se ausentar da mídia, Collor voltou com todo gás, tendo sido frequente nas redes sociais com entrevistas e opiniões sobre os efeitos da pandemia na economia e na política. Já para a próxima terça-feira foi confirmada, ontem, a presença do ministro Gilmar Mendes, do Superior Tribunal Federal. Com ele, vamos tratar da crise institucional envolvendo Governo e Judiciário.

Perguntar não ofende: O Centrão vai dominar o Governo Bolsonaro?

Publicado em: 04/06/2020