O guru comunista que inspirou a Direita

Por Antonio Magalhães*

Visto como um santo pela Esquerda e olhado como o diabo pela Direita, o pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937) operou mudança de atitude entre os direitistas ou conservadores brasileiros jamais imaginada pelos adversários do outro campo político. Esta reflexão veio a partir de um artigo do italiano publicado na edição do dia 23 passado do suplemento cultural do Diário Oficial de Pernambuco (claro que teria que ser no DO da pátria socialista do PSB).

Como é de praxe entre a Esquerda, todas as loas foram cantadas para elogiar o artigo como um estímulo ao avanço das forças supostamente progressivas por conta da sua determinação em agir politicamente. O texto é de 1917 e aborda a atitude dos indiferentes ou omissos em torno da política.

Gramsci começa assim: “Odeio os indiferentes. Creio que viver quer dizer tomar partido. Não podem existir os que são apenas homens, estranhos à idade. Quem vive verdadeiramente não pode não ser um cidadão, assumir um lado. Indiferença é apatia, parasitismo, velhacaria, não é vida. Por isso odeio os indiferentes”.

Por mais de 20 anos um grupo de Esquerda manteve a hegemonia política no País. Tucanos, petistas e satélites estiveram governando, roubando, corrompendo e levando o país à recessão. A esfera cultural também foi dominada, essa por mais tempo, por ser consentida pelo militares no período não democrático.

A maioria dos brasileiros nestas duas décadas controladas com mão de ferro pela Esquerda manteve-se silenciosa ou oprimida nas suas atividades. Até hoje um professor de universidade pública com perfil mais conservador é visto como um pária dentro da instituição. Às vezes sequer consegue dar aulas. Não se pense que isso mudou com os novos ventos políticos. As universidades públicas continuam sendo escolas de formação de militantes esquerdistas, principalmente nos cursos de Ciências Humanas.

Na esfera puramente cultural, artistas acostumados às verbas públicas e a cobranças de ingressos caros estão refazendo seus prognósticos profissionais, agora com pouco futuro diante dos efeitos da pandemia do coronavírus. Qualquer um mais independente tinha que amargar as dificuldades possíveis e os boicotes.

A  Esquerda manteve-se confiante à frente da máquina pública administrativa e cultural durante 20 anos e não percebeu a mudança que ocorria entre a maioria dos brasileiros. Os indiferentes e omissos, odiados por Gramsci, eram os agora que estavam no poder, ricos, refastelados e preguiçosos, acreditando nesse Reich de Mil anos como pensava Adolf Hitler.

A lição de Grasmsci de forma indireta chegou à Direita (quem sabe um dia ela presta uma homenagem ao italiano). Ela ouviu que “a indiferença opera com força na história”. Para o pensador sintonizado com a Direita, “a indiferença opera passivamente mas opera. É a fatalidade; é aquilo com que não se pode contar; é o que interrompe os programas, subverte os melhores planos; é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca”.

Gramsci entendia que “a fatalidade  que parece dominar a história não é senão aparência ilusória  da indiferença, do absenteísmo. Os fatos amadurecem na sombra, poucas mãos não submetidas a qualquer controle tecem a trama da vida coletiva e a massa ignora, pois não se preocupa”.

O guru da esquerda falava para seus “paisanos”, que viviam esmagados pelo sistema econômico da época. Jamais conceberia que suas palavras poderiam ser também proféticas para a Direita oprimida do século 21 no Brasil. Mas aconteceu.

Encastelados nas redes sociais e nos movimentos de ruas, conservadores, direitistas, anti-petistas, democratas, não mais indiferentes e omissos, puseram para fora da máquina pública a liderança esquerdista, seguindo a orientação, pelo menos subliminar de Gramsci: “Vivo, tomo partido. Por isso odeio quem não o faz, odeio os indiferentes”.

E foi seguindo o caminho da participação direta na política com apoio concreto ao segmento conservador, hoje no comando da administração pública federal, que a maioria dos brasileiros deixou de ser omissa em relação às coisas do País.

Obrigado, camarada Gramsci, você descreveu antecipadamente a revolução que tirou o Brasil do campo da Esquerda. É isso.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 28/05/2020