Coluna da quinta-feira

Panelaços são mau agouro

Movimentos sociais, centrais sindicais e outras entidades resolveram transformar as mobilizações de rua contra o Governo em panelaços e mobilizações virtuais, em decorrência da expansão do coronavírus no País e as recomendações para se evitar aglomerações. Na última terça-feira e ontem, centenas de pessoas por todo o País, de maneira espontânea, anteciparam o protesto e foram às janelas com um uníssono grito de “fora, Bolsonaro” e barulho de panelas batendo.

Apesar da manifestação oficial ter marcada para 20h30 de ontem, a população resolveu se antecipar novamente e promoveu um grande panelaço durante a coletiva de Jair Bolsonaro e ministros na noite da terça-feira. Os protestos ocorreram depois de Bolsonaro falar, mais de uma vez, em “histeria” em relação ao novo coronavírus e dizer que ações de governadores sobre isolamento prejudicam a economia.

À noite, o governo anunciou que pedirá ao Congresso para reconhecer estado de calamidade pública em razão da pandemia. No domingo, o presidente descumpriu monitoramento por coronavírus, participou de um ato a favor do governo e cumprimentou apoiadores no Distrito Federal. Na terça, Bolsonaro disse que o segundo teste para o coronavírus deu negativo.

Segundo o último balanço do Ministério da Saúde, há 291 casos confirmados de coronavírus, mais de 8 mil suspeitos e uma morte. Pelas redes sociais, moradores de diferentes regiões postaram vídeos de seus panelaços locais, como no Recife, com epicentro em Boa Viagem e Casa Forte. Bolsonaristas, com o apoio dos filhos do presidente, definiram como estratégia lançar palavras de ordem contra o Congresso Nacional, o mesmo mote que levou às ruas manifestantes em apoio ao governo no dia 15 de março, mesmo com recomendações das autoridades de saúde pública que fossem evitadas aglomerações – o próprio presidente chegou a cumprimentar manifestantes em frente ao Palácio do Planalto.

Os panelaços de ontem e terça ocorreram depois de o deputado distrital de Brasília Leandro Grass, da Rede, ter apresentado ao Congresso o primeiro pedido de impeachment contra Bolsonaro após o início da crise envolvendo o coronavírus. De manhã, Bolsonaro voltou a afirmar que há “uma certa histeria” em relação à doença. “Esse vírus trouxe uma certa histeria. Tem alguns governadores, no meu entender, posso até estar errado, que estão tomando medidas que vão prejudicar e muito a nossa economia”, disse em entrevista à rádio Super Tupi.

“A vida continua, não tem que ter histeria. Não é porque tem uma aglomeração de pessoas aqui e acolá esporadicamente que tem que ser atacado exatamente isso. Tirar a histeria. Agora, o que acontece? Prejudica”, acrescentou. Se continuar agindo assim, o presidente caminhará para à forca, enfrentando de um lado a insatisfação da população diante das medidas de prevenção do coronavírus e por ouro a ira do Congresso, aviltado pelo próprio presidente.

A GloboNews e o picareta – Passava das 23h da última terça-feira quando o principal telejornal noturno da GloboNews, o J10, comandado por Heraldo Pereira, de Brasília, destacou os panelaços contra Jair Bolsonaro em grandes cidades brasileiras. A âncora no estúdio do Rio, Cecília Flesch, listou bairros de classe média, como a Barra da Tijuca, onde o presidente tem casa, com manifestações ruidosas. “Picareta, picareta!”, ouviu-se em um dos vídeos mostrados. “Fora Bolsonaro!”, no áudio de outra gravação. Foram transmitidas imagens caseiras feitas também por moradores de São Paulo, assim como vídeos captados no Recife, em Belo Horizonte e Brasília. O comentarista de política Merval Pereira, homem de confiança da família Marinho, disse que os panelaços são feitos por eleitores de classe média que se arrependeram do voto em Bolsonaro.

Reação – O presidente disse que a ida dele a um ato pró-governo no último fim de semana provocou “histeria”. Declarou também que o panelaço contra ele foi uma “manifestação da democracia”. Bolsonaro deu as declarações ao conceder uma entrevista coletiva no Palácio do Planalto, na qual falou sobre medidas do governo para tentar conter o avanço do novo coronavírus. Os protestos contra o presidente foram registrados na noite desta terça em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Distrito Federal e Recife. “Não interessa o que vier a acontecer. Qualquer manifestação popular nas ruas ou dentro de casa com panelaço nós, políticos, devemos entender como uma pura manifestação da democracia”, declarou.

Fechamento geral – Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) assinou, ontem, um decreto determinando o fechamento do comércio na cidade de São Paulo a partir de amanhã, até o dia 5 de abril, por causa da crise do coronavírus na cidade. Segundo o prefeito, a restrição atinge apenas os atendimentos presenciais do comércio. As lojas poderão continuar vendendo produtos através do telefone ou das vendas online. No caso do Recife, desde ontem, o horário do funcionamento dos shoppings foi alterado, sendo reduzido em duas horas, abrindo agora somente ao meio dia e fechando às 20 horas ao invés de 22 horas.

Juntos, novamente – Depois que esta coluna registrou o distanciamento do governador Paulo Câmara do prefeito do Recife, Geraldo Júlio, nos primeiros anúncios de emergência de enfrentamento ao coronavírus, eles adotaram a estratégia de anunciar novas medidas juntos, como se estivessem bem, quando não é verdade. Isso foi mais uma vez observado, ontem, na coletiva de confirmação de 22 casos de Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. São três a mais do que no boletim divulgado na terça-feira passada. Além disso, o Estado anunciou que vai reativar dois hospitais particulares para receber os pacientes. Outra medida foi o cancelamento de cirurgias que já estavam marcadas, a partir de amanhã.

CURTAS

SEM RISCO – Diante da pandemia do novo coronavírus, o secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, Pedro Eurico, garantiu, ontem, que não há, neste momento, risco de desabastecimento em supermercados e mercadinhos do Estado. A afirmação foi feita após reunião com representantes da Associação Pernambucana de Supermercados (Apes), na sede da secretaria, no Centro do Recife. De acordo com Pedro Eurico, responsável pela Secretaria que gerencia o Procon de Pernambuco, não há necessidade de as pessoas correrem para as lojas para abastecer suas casas.

ENFIM, CEDEU – Depois de expor a vida de muitos usuários, com filas enormes, quando a recomendação da OMS para se prevenir do coronavirus é não promover aglomerações, o Detran anunciou medidas para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. Alguns serviços tiveram redução de até 50% no atendimento, como a captura de imagem para a carteira de motorista e emissão do documento do veículo. O órgão também prorrogou, por 15 dias, a data de vencimento de multas locais. Ainda de acordo com o plano, os agendamentos para exames práticos, nas categorias A e B, estão suspensos. Além disso, o número de vistorias dos automóveis terá uma redução em 50%, em todo o Estado.

CENSO ADIADO – A assessoria de imprensa do Senado informou, ontem, que o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), contraiu o novo coronavírus. De acordo com a assessoria, o primeiro teste ao qual ele foi submetido deu negativo, mas, na noite da última terça, o presidente do Senado fez um novo exame, que deu resultado positivo. “Davi Alcolumbre, no entanto, está bem, sem sintomas severos, salvo alguma indisposição, e segue em isolamento domiciliar, conforme determina o protocolo de conduta do Ministério da Saúde e a OMS”, acrescentou a assessoria.

Perguntar não ofende: Cadê o resultado do teste do corona do presidente da Embratur, Gilson Machado Neto?

Publicado em: 18/03/2020