Fortaleza deixou Recife para trĂ¡s, diz Fagner

Quando estive em Fortaleza, há dez dias, para cumprir a pauta derivada da entrevista do empresário João Carlos Paes Mendonça, que apontou a capital cearense e Salvador como ilhas de excelência no Nordeste dos avanços e da modernidade de hoje, fiz uma visita à Fundação Raimundo Fagner, mas por lá não encontrei o cantor, que está em ritmo de gravação de um novo CD no Rio, desta feita de clássicos de seresta.

Ontem, por uma dessas felicidades de vida de repórter, consegui entrevistar Raimundo Fagner por telefone para o Frente a Frente. Bem humorado e acessível, ele falou do seu novo CD, da sua vida, de futebol, do trabalho social na Fundação com o seu nome em Fortaleza e Orós, de política, do Governo Bolsonaro e das mudanças que o Ceará, especialmente Fortaleza, vêm passando com a gestão modernista, social e arrojada do prefeito Roberto Cláudio, o melhor do País, segundo o portal G-1 das Organizações Globo.

"Fortaleza melhorou muito e deixou não apenas o Recife para trás, mas também Salvador", constata Fagner. Abaixo sua entrevista.

O senhor já acabou as gravações do novo CD?

Dei um tempo nas gravações no Rio e já estou de volta a  Fortaleza para o Carnaval.  Estamos bem adiantados nesse projeto de seresta, recuperando uma bela história da nossa música da época dos grandes cantores de rádio, em quem me espelhei muito, através do meu irmão Fares Lopes, que foi grande seresteiro aqui no Ceará e que hoje tem uma história ligada ao futebol, tendo inclusive uma Copa com o nome dele. Minha infância acabou sendo adulta, ouvindo cantores como Silvio Caldas, Orlando Silva, Chico Alves. Fui muito influenciado pelo Fares e pelo Evaldo Gouveia, afilhado dos meus pais e que foi nosso companheiro desde infância. Então, estou realizando um sonho de infância, trazendo essas músicas e espero que elas revigorem a música brasileira. Estou muito feliz em fazer esse projeto.

Já fiz no Frente a Frente uma sessão especial de algumas gravações em primeira mão.Tenho a impressão que o CD vai "bombar", viu Fagner!

(Risos). Muito obrigado a todos que ouviram. Realmente estamos precisando revigorar o que existe de bonito na música brasileira e as pessoas sempre reclamam do que se toca no rádio, mas existe gente que quer fazer diferente e esperamos que nós possamos dar às rádios um material que satisfaça a vontade de tantos ouvintes, principalmente desse repertório, que é um pouco órfão. Então, acho que pode se  recuperar um pouco dessa história.

Podemos dizer que são musicas de "dor de cotovelo"?

Não, não é dor de cotovelo. Só se for dor de cotovelo de saudade da boa música. São músicas marcantes, de grandes autores, como Pixinguinha, Ary Barroso, Orestes Barbosa, uma das páginas mais bonitas da música brasileira. Ela realmente tinha dor de cotovelo, mas hoje pode ser substituída pela falta de músicas bonitas.

Fale da música "Rosa", que você regravou nesse trabalho.

É um dos grandes clássicos, escrita por Pixinguinha e cantada por Orlando Silva, o cantor das multidões. Tive o prazer de conhecê-lo no final da carreira. Fiz um show com Silvio Caldas, até. Pude conviver com essas figuras e todos tiveram sua história. Nós procuramos contemplar os ouvintes com músicas que fazem parte de uma página bonita.

Qual o prazo para finalizar esse trabalho tão lindo e emocionante?

Está praticamente pronto. Eles estão adiantando as mixagens no Rio de Janeiro e acredito que lá para o meio de março é possível que a gente já tenha isso em mãos. Vai sair no formato CD e vinil, inclusive.

Estou lendo sua biografia e percebendo um Fagner brincalhão, irreverente, que gosta de futebol. É um outro lado, o Fagner que poucos conhecem?

(Risos). Através dos anos, sempre que a gente aparece na televisão, leva esse espírito cearense, brincalhão. Eu sempre tive isso, mas talvez as entrevistas que eu tenha dado foram muito num tom mais sério. Mas sempre fui brincalhão.

E de onde vem tua paixão pelo futebol?

 Foi através do Fares, meu irmão. Ele foi presidente do Fortaleza e também da Federação Cearense de Futebol. Por várias vezes, o Ricardo Teixeira (Ex-presidente da CBF), quis que ele fosse presidente da CBF, mas ele sempre quis ficar pelo Ceará e sempre foi muito respeitado. Ele me levava aos estádios e aí começou minha paixão. Além de tudo, sempre gostei de jogar futebol. Agora, todo mundo pensa que eu sou flamenguista por ser compadre do Zico, mas minha relação com o futebol é muito forte, inclusive estou preparando um livro só sobre isso.

O Fagner joga na defesa ou no ataque?

Eu respeito o treinador. Onde ele botar, eu vou (risos). Mas sou artilheiro. O pessoal de Recife sempre me chama para as peladas e já joguei muito por aí. Construí grandes amizades com Rivelino, Sócrates e Pelé.  

O senhor conheceu Cuíca, Fernando Santana, Nunes, craques  do Santa Cruz dos anos 70?

Sim, todos eles. Luciano Veloso, também. Além do time do Náutico, de Nado, Bita, Ivan, Lala. Este ficou na história. Jogava de igual pra igual com o Santos, mas perdia aqui no Ceará (risos).

Agora fala um pouco da Fundação Raimundo Fagner, que conheci quando estive em Fortaleza. Fiquei impressionado com teu lado humano e social...

É muito lindo. É um projeto que me realiza e também as pessoas que estão ao meu redor. Ele começou através da minha amizade com Ayrton Senna, uma referência para mim no momento em que ele estava fundando o instituto dele. Essa história foi tomando corpo, tive ajuda do pessoal do Café Santa Clara, hoje Café Três Corações, outros parceiros do Ceará e pessoas que se aproximaram. Nós já estamos com 22 anos de trabalho. Você viu o que nós fazemos lá e hoje é um espaço da comunidade de Messejana. É um projeto que tem nos dado muito alegria e é um benefício para os jovens que estão lá. Você deve ter sentido como é importante para os que participam. Tenho certeza que vamos deixar um lindo legado.

Tem algum garoto que chegou na Fundação e hoje é um revelação na música?

A gente não tem essa pretensão, embora possa aparecer. Mas tem um garoto que é um grande músico e outros que têm surgido. Mas a intenção é estimular esse lado da música, que é importante na formação das crianças e estamos fazendo. Mas tem sim garotos que se apaixonam pela música e lá na frente podem se tornar grandes artistas.

O senhor tem elogiado o Governo Bolsonaro. Há razão para isso?

Eu acho que ninguém é Bolsonaro. Todos estamos Bolsonaro. Existiu um chão arrasado por governos anteriores, o Brasil foi para o fundo do poço. Eu tive momentos em que apoiei o governo que passou, através de Lula, que fez um excelente governo no primeiro mandato, mas a história final todo mundo sabe. Ainda estamos saindo do fundo do poço. E o Bolsonaro, acredito que nem ele imaginaria que seria presidente e está aí hoje. Queira ou não queira, tirando o que ele fala, a pouca experiência e arrogância, vem recuperando o Brasil da devastação que a gente se encontrava. Torço, como torci sempre para qualquer político, num país que tem uma grande capacidade como o nosso, mas que é assaltado por aquela classe política que a gente vem sofrendo há anos. Apoio o governo dele, apesar de não concordar com algumas coisas que ele vem falando, com a maneira grosseira que ele encara as pessoas, mas vem fazendo uma boa política.

Os filhos prejudicam o Governo dele? Interferem muito?

Essas histórias é o que a gente escuta. Talvez por não imaginar que podia chegar aonde chegou e tendo uma família com filhos metidos na política e essas histórias no Rio de Janeiro, talvez tenha coisa que a gente não concorda e ele seja refém dos filhos. Mas ninguém nunca sabe a verdade e é bom ficar calado. Mas que os filhos tem tido uma influência negativa, isso ninguém tem dúvida.

O senhor acha que existe má vontade da imprensa com ele? Ou ele provoca muito a ira da Imprensa? 

Uma mão suja a outra. Ele foi muito atacado pela imprensa, principalmente a Globo e eles vivem essa disputa constante. Ele bate e a TV Globo responde. Mas acredito que muitos meios de comunicação não estão nesse jogo.

A economia está reagindo? 

Não sou a pessoa mais competente nem indicada para falar, mas acredito que sim. Temos o Paulo Guedes, que é um liberal, que também fala umas bobagens, mas é respeitado no mercado e tem tido resultados e um diálogo melhor com outros países. Acho que ele busca uma maneira diferente de governar.

O Nordeste ainda é muito lulista e há quem diga que existe um certo preconceito de Bolsonaro com a região. O senhor concorda? 

Evidente que, pelas eleições, o Nordeste é, em sua maioria, petista. Mas acredito que Bolsonaro não seja revanchista nesse sentido. Ele tem demonstrado em alguns casos. Aqui no Ceará, por exemplo, tem feito coisas pelo Estado. Acho que, apesar da polêmica, ele vai buscar governar para esse povo, até para ganhar essas pessoas, não é? Ele não é burro. Ele tem que conquistar esse povo. É um povo que vota forte. Acredito que ele não dê murro em ponta de faca, não.

JCPM deu uma entrevista aqui para o Blog dizendo que Fortaleza seria um exemplo para o Nordeste e realmente eu vi avanços na cidade. Parece que Recife vai ficando para trás, concorda?

Fortaleza cresceu muito. É um dos maiores pontos turísticos do Brasil. O aeroporto foi inaugurado e está fantástico, acredito que você tenha conhecido. Tem voos internacionais, coisa que só existia em Recife e Salvador. Fortaleza, como diz o flamenguista, está em outro patamar. A cidade está sendo muito bem administrada pelo prefeito e pelo governador e Fortaleza deu esse salto. Acredito que as coisas possam ter mudado sim, em relação a Recife, que ficou para trás. Não acompanho muito, mas Fortaleza deu esse salto, pela mobilidade, e está à frente de Recife e Salvador.

E há uma sintonia entre o prefeito Roberto Cláudio e o governador Camilo Santana. Parece que eles querem fazer muito mais...

Com certeza. E esse ano é eleitoral, então certamente eles vão fazer muito mais. E estão podendo. Por mais que não tenha sintonia com o governo federal, existem outras maneiras de governar.

Quando Fagner volta a Pernambuco?

Eu adoro Pernambuco. O público é lindo, na agenda não tem nada marcado, mas espero que em breve. Tem um projeto de Frei Damião, que nós estamos trabalhando, tive uma ligação com o processo de canonização, que pode envolver um show, então tem essa possibilidade.

Sabe quem está juntando as economias para um show seu? Sebastião Dias, prefeito de Tabira.

(Risos). Grande Sebastião! Grande poeta! Espero que ele esteja fazendo um grande trabalho na terra dele, faz anos que eu não o vejo, mas tenho maior respeito. Espero que ele faça uma ótima administração, porque dessa forma eu participo dessa história. Tive o prazer conhecê-lo e gravei uma música dele. Tenho orgulho de ter participado da história dele e ter divulgado o trabalho dele para todo Brasil.

Publicado em: 18/02/2020