No Carnaval de Triunfo

Há muito, passo o reinado do momo na praia, ouvindo o barulho das ondas. Nascido nas montanhas de Minas, Rubem Alves tinha o mar como inspiração. Os ipês também encantavam ele. Meu encanto e canto poético é o Sertão.

Acho que herdei o apego ao chão batido e seco euclidiano vendo meu pai beijar de manhã a flor do mandacaru. No meu livro Reféns da Seca, estampei uma frase antológica dele: "No Sertão, até as pedras são lindas".

Por aí dá para sentir o quanto ele ama sua terra. Este ano, vou respirar de manhã cedo as hortênsias de Triunfo, o cheiro dos seus eucaliptos, a vegetação caatingueira, ouvir o rouxinol cantado por Roberta Miranda. Gosto tanto das veredas sertanejas que, muitas vezes, sinto exalar dentro de mim cheiro de bode.

Luiz Gonzaga dizia que Januário, o seu pai, era tão sertanejo que tinha perfume de barbicha de bode. Prefiro o perfume das flores do marmeleiro, do ipês amarelos, do cajueiro e do umbuzeiro.

O Sertão tem ar quente e seco, noites serenas, o vento da madrugada mais parece brisa do mar. Lampião fazia fogueira para espantar o frio da noite nas moitas que se escondia correndo das forças volantes, a polícia, que o perseguiu e o matou.

No filme O Bacurau, Kléber Mendonça jorrou sangue em terras do novo e repaginado cangaço. Mas o Sertão é território pacato, é vida andante cheia de versos dos seus poetas, cantadores e emboladores.

Eu tenho alma e espírito euclidiano. Meu carnaval em Triunfo será um abraço sem tamanho e limite do reencontro com minhas raízes.

Publicado em: 16/02/2020