Notícias são como falsos brilhantes

Paula Cesarino Costa – Folha de S.Paulo  (OMBUDSMAN)

Um jornalista recebe um vídeo de dez segundos em que uma mulher moribunda aparentemente está sendo molestada. Atento à circulação das imagens nas redes sociais, produz de imediato um relato jornalístico indignado, publicado pelo jornal indiano "The Hindu".

A notícia baseava-se em interpretação equivocada, segundo apontou o ombudsman do jornal. "Quando a indignação precede a verificação", resumiu A.S. Panneerselvan. Versão mais longa daquelas imagens deixa claro que o homem tentava ajudar uma mulher ferida.

O editor do jornal assumiu a responsabilidade pelo erro, publicou um pedido de desculpas, removeu o texto das páginas eletrônicas e criou grupo para reexaminar histórias sensíveis antes de publicá-las.

O episódio ilustra o fato de que os questionamentos sobre as práticas jornalísticas são fenômeno mundial.

Panneerselvan foi o anfitrião da conferência anual da ONO (Organização de Ombudsmans de Notícias), realizada em Chennai, Índia, no final de outubro. Durante cinco dias, ombudsmans, ouvidores, defensores do leitor e estudiosos de 15 países espalhados por quatro continentes discutimos a crescente falta de confiança na mídia e os diferentes perigos e desafios a partir da propagação maciça de notícias falsas.

No encontro, foi divulgada pesquisa riquíssima sobre o consumo de notícia em meios digitais em 36 países, produzida pelo Instituto Reuters/Universidade de Oxford.

Um dos dados mais preocupantes indica que só 40% dos leitores consideram que a mídia tradicional consegue dissociar fato de boato. O coordenador da pesquisa, Rasmus Kleis Nielsen, afirmou que, em sociedades polarizadas, aumenta o grau de desconfiança sobre as organizações de notícias e sobre as notícias em si. "Muitos dos grupos ouvidos demonstraram consciência de que grande parte das 'fake news' tem origem em interesses políticos."

Na avaliação da atual presidente da ONO, Esther Enkin, as discussões sobre falsas notícias e falsas equivalências (tratar temas de importância diferente com mesmo peso jornalístico) estão no cerne das questões de qualquer ombudsman. "As organizações que comprovem transparência e responsabilidade vão ampliar seu nível de confiança", disse Enkin, ombudsman da CBC, emissora pública do Canadá.

Na abertura do debate sobre "fake news", Ignaz Staub, ombudsman do grupo suíço Tamedia, rememorou notícias falsas que circularam séculos atrás, como a do faraó egípcio Ramsés II, que mandou gravar nas paredes de um templo vitória guerreira que não houve.

Staub apontou que a definição atual de notícia falsa é cada vez mais fluida, misturando má-fé, erros e oportunismo político e econômico no mesmo pacote.

O estudo do Instituto Reuters fez um apanhado do que o público associa hoje em dia à expressão "fake news". Leitores assim consideram de publicações satíricas a publicidade disfarçada, passando por propaganda política e jornalismo superficial e sensacionalista.

Ignaz Staub citou frase de Margaret Sullivan, ex-ombudsman do "The New York Times", que considera que a expressão perdeu sentido por falta de precisão. Por vezes, resume simplesmente notícias que um certo observador não gostou de ouvir. "Temos de chamar uma mentira de mentira. Chamar um engano de engano. Se há uma conspiração, que assim seja definida. Designar tudo isso como notícia falsa é por demais impreciso", afirmou Sullivan.

Notícias falsas são falsos brilhantes: ludibriam aqueles que não têm como detectar uma joia falsa, mas se esfarelam como grafite quando expostos à luz.

A conferência internacional de ombudsmans não buscava conclusões, mas reunir experiências, compartilhar análises e discutir novos procedimentos que fortaleçam a qualidade do jornalismo e, consequentemente, a confiança do leitor. As maiores organizações de notícias do mundo estão empenhadas em tal projeto porque concluíram que ali reside a razão de sua existência.

Publicado em: 05/11/2017