Alexandre Santos*
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Muito se tem falado sobre o papel das associações e academias literárias. Os circuitos mal informados as associam a lugares onde desocupados diletantes versejam ao sabor do nada, embalados por conversas fátuas, torradas e chás. Nada mais enganoso.
As associações e academias de letras são, antes de qualquer coisa, fóruns literários e, nesta perspectiva, funcionam como instrumentos de divulgação e preservação da língua, cumprindo importante papel político e cultural. Jamais se pode esquecer que a língua falada e escrita, incluindo os estilos, os sotaques, as gírias, as manhas e tudo o mais, formam um aspecto fundamental do matiz cultural responsável pela unidade política dos povos e das nações. Não foi a toa que, ao invadir a Coréia em 1908, o Japão proibiu o uso da língua pátria, punindo com a morte os coreanos que tentassem usá-la em simples conversas ou na comunicação. Naturalmente, as línguas, como ensinou Celso Cunha, são uma criação da sociedade e, como tal, vive em evolução “paralela a da organização cultural que a criou”. Mas as mudanças na língua não podem violar certos limites, pois as palavras não devem ser manipuladas para atender a interesses espúrios. As palavras não devem ser objetos de jogos e usos irresponsáveis para que assumam signific
ados diversos dos originais, de modo a confundir as pessoas em sua boa fé. Palavras como ‘liberdade’, ‘justiça’, ‘democracia’ e, mesmo, ‘paz’ e ‘amor’ são freqüentemente manipuladas, em verdadeiros estelionatos lingüísticos que visam ajustar conceitos amplos a interesses mesquinhos em contextos limitados. Ao cultivar a literatura, as associações e academias literárias constituem trincheiras privilegiadas de defesa da língua, desestimulando a ação dos salteadores da palavra, sendo, assim, um importante bastião de defesa da nacionalidade, da democracia e do bom relacionamento entre as pessoas.
Além disso, ao estimular a escrita e a leitura, as associações e academias literárias cultivam o germe da liberdade permitida pelo conhecimento e fortalecem as pessoas contra a ação dos manipuladores e espertalhões. Talvez a relutância que alguns têm para se irmanar à festa dos escritores, fazendo do País uma nação de leitores, tenha razões de natureza política, pois a cultura e o sentimento crítico dela advindo assusta conservadores e vivaldinos. Não é outra a razão da baixa prioridade historicamente atribuída pelos governos à cultura e à educação. Não é outra a razão dos escritores estarem permanentemente na alça de mira de golpistas e insensíveis, como hoje acontece em Honduras – onde os artistas da palavra são perseguidos e impedidos de proclamar o sonho popular – e, aqui em Pernambuco – onde a sede da entidade maior, a UBE, a Casa do Escritor Pernambucano, vem sendo submetida a uma humilhante tentativa de esbulho, com invasão e bloqueio do terreno destinado a construção do auditório, da biblioteca e do p
avilhão de eventos literários, sonhos acalentados há muitas décadas.
A literatura, como todas as artes, não é um fim em si mesmo. É um meio para a conquista de melhores condições de vida para a sociedade. É um canal através do qual as pessoas podem adquirir condições para melhor compreender o universo e se fazer protagonista do processo de desenvolvimento. Por isso, o bom funcionamento das associações e academias literárias não é de interesse apenas dos amantes da leitura e dos livros. O bom funcionamento destas entidades é de interesse de todos, sendo, na maior parte dos casos, sinônimo de desenvolvimento social.
Em Pernambuco, consciente dos compromissos que as associações literárias têm para com a defesa da língua e, conseqüentemente, com o bem estar da sociedade, a UBE abre os braços e o coração para todos os tipos de manifestação literária, apoiando grupos, movimentos e empreendimentos que estimulem a escrita e a leitura, exercitando o compromisso de lutar pela preservação da palavra e pela liberdade substantiva dos amantes da literatura, contribuindo, desta forma, para efetiva para realização do bem estar social e desenvolvimento da Humanidade.
Que o pássaro da literatura alce vôo e espalhe o germe da liberdade permitida pela leitura e pelo conhecimento, fazendo de cada brasileiro um protagonista da história que o mundo escreve.
*Presidente da UBE e da Academia de Letras e Artes do Nordeste