Alexandre Santos*
Em 06 de novembro de 2007, em reunião no Palácio do Planalto, a Petrobrás anun-ciou ao staff do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a descoberta de reservas de quase 8 bilhões de barris de óleo e gás em águas profundas do campo de Tupi, na bacia de Santos – um achado que, segundo o governo, coloca o Brasil em novo patamar na indústria do petró-leo, pois, com os novos campos, o País passa a ter uma das dez maiores reservas mundiais (equiparadas às da Venezuela e da Nigéria), assumindo a condição de exportador. A notí-cia, que veio a público dois dias depois, elevando o valor de mercado da Petrobrás para US$ 221,9 bilhões, pode alterar definitivamente a história do País.
Nunca é demais lembrar que possuir muito petróleo não significa necessariamente viver em prosperidade. Que o digam Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes e Nigéria. Estes países, justamente em função do petróleo em abundância que têm, são alvos da gana de governos e companhias petrolíferas, que, como águias predadoras e abutres famintos, os mantém permanentemente na alça de mira, submetendo-os de quando em vez a violentos processos de desestabilização em operações diplomáticas e militares que os con-verte em verdadeiros infernos. Os mais bem informados sabem que, em matéria de insuflar invasões, guerras civis, golpes de estado e outras malvadezas, empresas como a ExxonMo-bil, ConocoPhillips, Chevron, Royal Dutch Shell, BP, Total, Eni e Statoil/Norsk Hydro são tão eficientes quanto a CIA ou o departamento de estado dos Estados Unidos.
Isto, em bom português, quer dizer que as recém descobertas províncias petrolíferas ampliam as razões da cobiça internacional sobre o território nacional e, por isso, ao lado das preocupações sobre o que o governo vai fazer com as riquezas que delas advirão, o povo brasileiro deve questionar sobre quem vai proteger o país das águias predadoras e abutres famintos que vivem por aí?
Nunca é demais lembrar que, além do barril de petróleo estar beirando US$ 100, en-tre outros chamarizes para águias e abutres, o Brasil possui 12% de toda água doce existente no planeta (68,5% na região amazônica e o restante distribuído pelo país, inclusive no Aqüífero Guarani, o maior da Terra, que ocupa parte do subsolo da região sul), 99.4% de todo o nióbio (metal básico da indústria aeroespacial), a imensa floresta amazônica, conhe-cido ‘pulmão do planeta’, que, em área correspondente a 17 países europeus (Bélgica, Ale-manha, Eslováquia, França, República Checa, Holanda, Espanha, Áustria, Albânia, Portu-gal, Itália, Bósnia, Inglaterra e Suíça), abriga fenomenal biodiversidade e enormes jazidas de minerais estratégicos, como o urânio, e minas ainda não exploradas de ouro e diamante, etc., etc. Não é por outra a razão que 20 bases militares dos EUA – as poderosas bases aé-reas de Manta, no Equador, Rainha Beatrix, em Aruba, Hato, em Curaçao, e outras 17, in-cluindo três no Peru, quatro na Colômbia e em Mariscal Estigarribia no Paraguai – fazem um cerco continental ao território nacional.
Enquanto isso, como se nada estivesse ocorrendo a nossa volta, submetidas (como o restante do serviço público) a criminosas contenções que visam unicamente ampliar supe-rávits para pagamento de dívidas questionáveis e impagáveis, as Forças Armadas brasileiras passam por anti-patriótico processo de desmonte. Só para que se tenha idéia do que isso representa, em julho de 2002, em função da irresponsabilidade e descaso com a segurança nacional do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, sem recursos nem para garantir a alimentação dos 52 mil jovens que recrutara quatro meses antes, o Exército Bra-sileiro foi forçado a dispensar 85% dos recrutas, que sequer concluíram a formação básica do serviço militar obrigatório. Na mesma época, sufocados por restrições orçamentárias irresponsáveis, a Aeronáutica foi forçada a manter os aviões em solo e a Marinha de Guerra obrigada a suspender atividades do centro tecnológico de Aramar, que estava prestes a ini-ciar a construção do primeiro submarino atômico brasileiro, e conservar os navios nos portos.
Agora, o Brasil precisa mostrar que tem consciência dos riscos e perigos próprios da situação para a qual foi remetido pela descoberta de Tupi.
Infelizmente, não é o que está acontecendo. Ao lado da acertada decisão de retirar os 41 blocos localizados na região de influência do campo de Tupi, incluindo as bacias de Campos, Santos e Espírito Santo, da próxima Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), ao invés de tomar decisões efetivas para fortalecer as Forças Armadas, talvez sem se dar conta da mensagem embutida nos sutis lembretes veiculados pelo jornal britânico Financial Times de que a descoberta em Tupi impulsionara as ações da britânica BG Group, insistentemente referida como parceira da Petrobrás, o governo anuncia a com-pra de ultrapassados aviões espanhóis Casa 212, cujo modelo tem 47 anos. Parece piada!
O governo brasileiro precisa acordar para a nova situação. Além de dizer como pre-tende gastar a dinheirama que vai entrar no Tesouro Nacional, precisa explicar como pre-tende guardar as novas jóias da coroa.
*Alexandre Santos é presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco e da Academia de Letras e Artes do Nordeste