O filho que imortalizou a sua Caruaru

Caruaru é terra sagrada, santuário de artistas, poetas, jornalistas e intelectuais. Berço de imortais, como Tristão de Athayde e Nelson Barbalho. Gigantes consagrados no manejo do barro, como Vitalino. Políticos de alta linhagem, entre os quais Fernando Lyra, que ajudou Tancredo na transição para a Nova República. Caruaru tem muito mais. Tem a poesia versejada na musicalidade, que exportou das suas terras para o mundo o talento de um dos seus filhos mais ilustres: o discreto Onildo Almeida, que entre tantas inspiradas linhas traçadas em composições para Luiz Gonzaga, como a Feira de Caruaru, não ganhou, infelizmente, a mesma fama de Humberto Teixeira e Zé Dantas.

Gigante é gigante, mesmo quando a vida não dá esse reconhecimento. Ao celebrar  92 anos bem vividos, ontem,  Onildo Almeida fez um brinde ao céu, com saudade do rei do baião. Junto com  Dominguinhos, rasgando a sanfona, certamente estão alegrando as noites da eternidade. Caruaru deve uma grande homenagem a Onildo. A feira da cidade só ganhou notabilidade mundial depois da canção feita por Onildo.

Quem nunca ouviu: na feira de Caruaru, tem tudo que a gente quer. Essa música deu a Gonzagão o primeiro Disco de Ouro da sua carreira. Gravada em 1957, atingiu a marca de 100 mil cópias vendidas em apenas dois meses, enorme sucesso para os padrões da época. Foi tão grande que a canção possui versões traduzidas por 34 países, incluindo Estados Unidos, Japão e Suíça. 

Filho de José Francisco de Almeida e Flora Camila de Almeida, que desde cedo encorajaram o filho a seguir o caminho da música, sua grande paixão, Onildo fez mais de 500 composições. Foi ele, com o seu talento e admiração pelo rei, que impediu Luiz Gonzaga parar de cantar quando, numa crise de depressão, anunciou sua despedida dos palcos, pendurando a sanfona na sua Exu, terra natal.

Onildo compôs A hora do adeus e Gonzaga continuou cantando até morrer. "O meu cabelo já começa prateando/Mas a sanfona ainda não desafinou/A minha voz vocês reparem eu cantando/Que é a mesma voz de quando meu reinado começou/ Modéstia à parte mais que eu não desafino/Desde o tempo de menino/ Em Exu no meu sertão/ Cantava solto que nem cigarra vadia/ E é por isso que hoje em dia/Ainda sou o rei do baião".

Que belo! Gonzagão chorou ao ouvir a música pela primeira vez. Para Onildo Almeida, a canção é uma das principais obras dele. Tem uma história fantástica. Onildo conta que em 1967, o Rei do Baião sentia que tempo dele no cenário musical havia chegado ao fim. E pediu a Onildo para fazer uma música anunciando sua despedida. No início, o músico se recusou, mas fez a canção.

Uma semana depois do pedido, Onildo foi ao Rio e seus colegas de rádio de Caruaru estavam lá. Luiz Queiroga, que era um deles, tirou um papel do bolso com umas palavras e disse: 'Vocês querem ver o que é talento? Onildo, coloca música nisso aí'. Quando ele abriu o papel tinham dois versos: O meu cabelo já começa prateando, mas a sanfona ainda não desafinou/ A minha voz vocês reparem eu cantando, que é a mesma voz de quando meu reinado começou. Eram de Lula Queiroga. Onildo pegou a deixa e fez a música. Gonzaga achou a música bonita e a gravou, mas ela não marcou o fim da carreira do pernambucano. 

"Gonzaga não era só cantor, era compositor e instrumentista, por isso o acho o maior. Ele mudou e despertou no governo a realidade nordestina. Deu nome ao baião, xote, xaxado, coco de roda. Ninguém queria saber da música nordestina, era música de subdesenvolvimento. Mas, por causa da música de Gonzaga, o Nordeste mudou a cara", diz Onildo. 

Caruaru é a grande paixão de Onildo. A cidade ganhou da sua larva 13 canções, entre as quais o do seu centenário. Na letra de "Capital do Agreste", Onildo resgata a história de como Caruaru surgiu e cita nomes de pessoas importantes para o crescimento da "Capital do Forró". "Falo de dois dos primeiros prefeitos e de como tramitou o processo de povoado e de vila para cidade. Aliás, encontrei algumas das informações nos livros de Nelson Barbalho", diz.

Nomes como João Vieira de Melo, Major Dandinho, Manoel 'Neco' Porto, João Guilherme e vigário Freire foram lembrados na canção. "João Vieira era um coronel que vivia em Caruaru. Naquele tempo, coronel era um título comprado por pessoas ricas, grandes comerciantes. Foi por intermédio dele que o processo de vila para cidade aconteceu", diz.

Só para Luiz Gonzaga, Onildo fez 21 canções, muitas delas consagradas, como Cidadão de Caruaru, É noite de São João, Regresso, Sanfoneiro de Zé Tatu, Tá bom demais, dentre outras. Às vezes, é preciso que cantores, atores, escritores e artistas em geral deixem sua terra natal para serem reconhecidos.

Onildo contraria tudo isso. Mas Caruaru tem uma dívida impagável a ele. Sua Caruaru de tantas inspirações é um mar de poesias, de infinitas belezas e de singularidades. E, definitivamente, o seu estado nação, lugar cheio de encantos, de alegria renovadora. Por onde andar o coração de Onildo sua Caruaru estará a pulsar.

Publicado em: 14/08/2020