Gestão da Covid: Câmara e Geraldo reprovados, diz Armando

Escravo do silêncio imposto pela era da pandemia, o ex-senador Armando Monteiro Neto, presidente estadual do PTB e uma das principais lideranças no campo da oposição, sai da toca e afirma, nesta entrevista ao Frente e a Frente e ao blog, que o PSB faz a pior gestão da pandemia do País. “Somos o segundo Estado em óbitos no País. Se Pernambuco fosse um País, seriamos o segundo maior do mundo em número de mortes. Isso, na prática, aponta que o governador se mostra incompetente e o prefeito do Recife despreparado para administrar rios de dinheiro que a União liberou para cá”, desabafa. Para ele, ao invés de usar o dinheiro federal da Covid-19 para salvar vidas, Paulo Câmara e Geraldo Júlio promoveram ilegalidades que já resultaram em cinco operações da Polícia Federal.

“Recife é a segunda capital do Nordeste que tem mais óbitos por milhão de habitantes. E seguramente, foi a que mais gastou. Foi a que mais recebeu recursos federais. Os gastos em termos proporcionais não produziram resultados esperados. Uma Prefeitura como a de Salvador gastou muito menos do que Recife. No entanto, Salvador foi muito menos afetada do que Recife. Então, Recife se saiu muito mal, péssimo”, diz Armando. Confira abaixo a íntegra da sua entrevista, que vai ar durante o horário do Frente a Frente, que começa às 18 horas pela Rede Nordeste de Rádio, que tem como cabeça de rede a Hits 103,1 FM, no Grande Recife. Se você deseja ouvir pela internet, clique no Botão Rádio deste blog acima ou baixe o aplicativo da Rede Nordeste de Rádio pelo play store.

Como o senhor avalia o cenário político consequência da pandemia?

Um período atípico, mas a gente procura se conectar, usar ferramentas novas para não ficar fora do processo. As eleições municipais começam a ganhar uma atenção prioritária e nós estamos, tanto em nível do PTB, quanto em nível dos partidos que formam as oposições em Pernambuco, se movimentado intensamente. No PTB, fizemos um grande encontro nesta plataforma virtual, reunindo mais de 100 lideranças. Foi muito interessante, com a participação de lideranças da Metropolitana, das Matas, Agrestes e Sertões. Tivemos uma resposta muito boa, o pessoal está animado, o partido tem 35 pré-candidaturas a prefeito e esse número pode crescer até as convenções. Tem situações no plano municipal que estão pra ser definidas. E ao mesmo tempo, o PTB tem espírito de aliança. Nós temos compromissos com várias candidaturas de outros partidos. E são municípios estratégicos. E tem a questão do Recife, que tem muita centralidade. A eleição do Recife é muito importante para definir o futuro político de Pernambuco. E nós estamos muito animados com as pesquisas e pelos índices que são dados aos pré-candidatos da oposição. Achamos que essa é uma eleição das oposições no Recife.

O que se fala muito é na tese da unidade das oposições. O senhor está confiante num entendimento de candidatura única? Quem abre para quem?

Nós defendíamos a tese da unidade, até de candidatura única das oposições, mas como o campo governista se fragmentou e hoje se admite até a possibilidade de ter três candidaturas no campo governista, duas já confirmadas, eu acho que passa a ser possível se admitir a possibilidade de duas candidaturas de oposição no Recife. A esta altura, já tem uma candidatura posta, da delegada Patrícia Domingos, foi uma decisão do partido dela em nível nacional e agora estamos com outros pré-candidatos, esperando que a gente possa construir essa unidade. Tem nomes muito credenciados, como o ex-governador Mendonça Filho, uma pessoa que tem um lastro diferenciado. E é importante salientar que vai ser um cenário de pós-pandemia. E Pernambuco não se saiu bem. Nem Pernambuco, nem Recife. Se Pernambuco fosse um País, seria o segundo pior do mundo em mortes por milhões de habitantes. É um dado muito ruim.

E no Brasil, Pernambuco já é o segundo em número de mortes...

Em termos de mortes e números absolutos, Pernambuco está entre os cinco Estados com mais mortes. Mas há Estados muito pequenos, tipo Roraima, que tem um surto, mas aí são números distorcidos. Mas em números absolutos, é sempre bom lembrar, Pernambuco está em segundo lugar em número de óbitos, atrás apenas do Rio. E tem mais: Recife é a segunda capital do Nordeste que tem mais óbitos por milhão de habitantes. E seguramente, foi a que mais gastou, a que mais recebeu recursos federais. Os gastos em termos proporcionais não produziram resultados esperados. Uma Prefeitura como Salvador gastou muito menos do que Recife. No entanto, Salvador foi muito menos afetada do que Recife. Então, Recife se saiu muito mal, péssimo.  Lamentavelmente, denúncias gravíssimas de mau uso de recursos públicos, contratos mal feitos, estranhos. E tanto isso é verdade que as denúncias foram surgindo de várias origens e imediatamente os contratos foram desfeitos, o que significa dizer que eram frágeis. Em alguns casos, se apressaram a devolver os recursos. Um gestor que tenha convicção da lisura dos seus contratos, não recua, se sustenta. Ele tem que mostrar à população que os contratos se justificaram. Mas aqui em Pernambuco, não. Qualquer denúncia, os contratos eram desfeitos.

Quando o senhor fala em mau uso do dinheiro público, será que o PSB estava preocupado em fazer caixa de campanha com o dinheiro da Covid?

Eu não posso fazer essa ilação, pois a gente precisa ter elementos que vinculem os fatos. Mas quero dizer que há duas indicações graves: Recife é uma capital que gastou muito e houve uma série de denúncias. Eu fico nisso, pois é um juízo factual. Mas ilações podem ser feitas, mas eu não faço.

O senhor disse que Pernambuco seria o segundo no mundo em mortes. Isso se daria pela irresponsabilidade em receber tanto dinheiro e não saber investir?

Toda luta num processo como esse se traduz em salvar vidas. Essa campanha só tem essa medida: o número de vidas salvas. Mas, infelizmente, os resultados medidos são muito ruins. Em Pernambuco e no Recife. E ao mesmo tempo, é verificado que há Estados na região que tiveram resultado melhor. A Bahia tem hoje menos da metade do número de mortes em relação a Pernambuco.

Bolsonaro vai ter algum peso da eleição municipal?

Certamente. Eu acho que Bolsonaro é, hoje, num país polarizado, é um eleitor importante. Não há dúvida que o auxílio emergencial, pela dimensão, tem um impacto muito grande na vida das pessoas carentes, principalmente. Você, que é um homem que anda pelo interior, sabe o que isso significa. Eu escuto depoimentos de pessoas do pequeno comércio do interior que em plena pandemia, seus negócios aumentaram por causa da renda que foi proporcionada pelo auxílio. Eu fiz até o cálculo. Quando for paga a quinta parcela, Pernambuco terá recebido R$ 13 bilhões. No Brasil, já foram R$ 250 bilhões, 5% em Pernambuco. Então, é evidente que isso tem reflexo político.

Mas ainda pouco se observando nas pesquisas...

Já tem algum reflexo na avaliação do Governo Bolsonaro. Agora, as eleições municipais não são condicionadas por isso, embora isso tenha um peso relativo não é algo definidor. A eleição municipal se dá pelo debate de questões locais. A avaliação das gestões existentes e as propostas dos candidatos. Quem tiver credenciais, quem for ficha limpa, vai levar uma vantagem no processo. Agora, influência nacional vai existir, mas em qual magnitude não sabemos.

Quais os grandes desafios para o futuro prefeito do Recife?

Acho que o Recife precisa de um projeto novo, uma visão nova. E que possa se traduzir numa ideia de quais são os fenômenos urbanos do mundo. As cidades se reinventam, e aqui no Recife vivemos a era da mesmice. Tem áreas degradadas, o bairro de São José, várias áreas deprimidas e que a Prefeitura nada fez.

Jaboatão, por exemplo, está construindo um grande e moderno parque, dando inveja a nós, recifenses...

Aqui, tivemos os problemas de mobilidade urbana agravados. Há equipamentos mal conservados, obras que se arrastam há muito tempo. A reforma do Geraldão já vai mais de 10 anos. Que gestão é essa? Agora, Geraldo tem algo que ele faz bem:  propaganda na televisão. A mistificação. Gasta muito dinheiro em propaganda, instalou o chamado marketing da pandemia. Aproveitou esse momento de grande angústia, para apresentar um quadro de muitas ações, providências, que, na realidade, se traduz em mera espuma. Por exemplo, quantos hospitais de campanha implantou? Que serventia esses hospitais tiveram? E aquelas camas, podem se considerar leitos clínicos? O que todo esse investimento resultou? Enquanto isso, muitos profissionais de saúde nem equipamento de proteção individual tiveram. Esse segmento, sim, deveria ter sido mais bem cuidado. Essas administrações gostam de mostrar prédios, de fotografar unidades de campanha, em suma, a gente fica com a impressão que serve só aos programas eleitorais, lamentavelmente.

Há saturação de PSB?

Nós vemos as estradas degradadas e eu já tive a oportunidade de dizer que o Estado de Pernambuco é o que menos investe no Nordeste. Temos o segundo maior orçamento público, mas somos o quinto ou sexto em investimentos. Ceará e Bahia já investiam mais, e nos últimos anos, Alagoas, Maranhão e até Paraíba investem mais. É por isso que os equipamentos não têm manutenção.

É legal meter a mão no dinheiro da COVID para pagar dívida externa?

Trata-se de uma discussão polêmica. Se o recurso que foi destinado não poderia ser de forma direta, mas se são dois fundos, poderia.  Eu não tenho todas as informações. Mas o que eu quero dizer é que em relação ao PSB, há um sentimento que está esgotado. A gente está à mercê do interesse de um grupo que quer manter se manter no poder, apenas. Esse grupo não oferece futuro a Pernambuco.

O fim desse grupo seria com a perda da eleição no Recife?

Não posso fazer prognósticos, mas acho que a eleição do Recife representará um marco importante para moldar o futuro político de Pernambuco. Eu tenho muita confiança que essa hegemonia do PSB vai ser quebrada a partir da eleição do Recife. Acho que o primeiro ponto é "Viva a alternância, pois Pernambuco sempre foi pluralidade. Pernambuco não é propriedade de um grupo político, muito menos de uma família. Eu tenho a sentimento que as oposições vão ganhar no Recife.

Publicado em: 11/08/2020