Um homem vocacionado para servir

A cada ida a Afogados da Ingazeira, uma recordação resgatada do túnel do tempo. Nesta foto, meu pai Gastão Cerquinha discursando numa reunião como vereador da terrinha. Homem do povo, teve quatro mandatos eletivos e um de vice-prefeito. Só não realizou seu sonho de governar o município porque foi traído pelo grupo político ao qual estava vinculado.

Papai dedicou sua vida inteira à coisa pública, seja no exercício dos seus mandatos, sempre com votações expressivas, duas delas o parlamentar mais votado, seja como servidor público federal dos Correios e Telégrafos e até mesmo como um dos mais prósperos comerciantes da região do Pajeú no ramo de miudezas em geral, antes dono de padaria. Tudo com muito sacrifício. Garoto, vendeu banana nas feiras livres.

Papai foi até representante lotérico da CEF em Afogados e dono de quarteirões de terras na cidade. O bairro Brotas, onde está localizada hoje a AABB, clube social do BB, pertenceu a ele quase em sua plenitude. Foi se desfazendo da gleba por meio de loteamentos, cujas mensalidades eram cobradas por mim. O Plano Collor fez de uma hora para outra o sólido patrimônio dele virar um castelo de areia.

Foi a partir desse golpe mortal que entrou em ruína financeira, mas conseguiu materializar o grande sonho: fazer gente na vida os nove filhos, seu verdadeiro patrimônio, tesouro de amor, rio perene de felicidade. Dos nove, três são jornalistas: Denise, Ana e eu. Uma é engenheira, Fátima. Seu herdeiro na política é Augusto, vereador no quinto mandato, dois mandatos de vice-prefeito.

Maria José, a primogênita das filhas, é servidora pública estadual. O primogênito Tarso, sucessor no comércio e hoje servidor público municipal. Marcelo, o Boiba, residente em Serra Talhada, é servidor público municipal concursado e topógrafo dos bons. Já Gastão Filho, o caçula dos homens, é bem sucedido topógrafo na região, com atividades ampliadas para o Nordeste, tendo sido responsável por grandes projetos federais e estaduais no Ceará, Alagoas, Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba e até no Maranhão.

Mas papai nunca descuidou dos filhos. Certa vez, no auge da briga que travei com o ex-governador Eduardo Campos, ele o recebeu em sua casa em Afogados da Ingazeira e no meio da conversa os desencontros meus com Eduardo entraram na pauta e lembro até hoje de uma frase dele: "Não persiga meu filho, não. Quando julgar-se vítima da sua caneta, me diga. Meu filho nunca me deixou de ouvir".

Um homem além do seu tempo, devotado à família, aos amigos, apaixonado pelo Sertão e pela política, sua maior paixão.

Publicado em: 10/08/2020