O Sertão é minha paixão

No Sertão, onde estou desde ontem para abraçar fortemente o meu pai Gastão Cerquinha, 98 anos, amanhã, Dia dos Pais, não se acorda. É acordado pelo canto dos pássaros, pelo alertar do galo, o relinchar do jumento, que dá as horas, como descobriu Luiz Gonzaga com a sua ciência sertaneja. Abre-se a janela e o rouxinol nos dá bom dia, o bezerro muge no curral nos convidando a tomar o leite quente jorrando das tetas da vaca juriti.

O descortinar do Sertão é um arco-íris de beleza, criação divina. Contempla-se como uma bela mulher, uma Iracema dos lábios de mel. Toda mulher bonita tem um pouco da beleza da paisagem sertaneja. É uma lua que nos ilumina o chão que a gente bate estradas em busca de um amor ardente feito a flor do mandacaru. É aqui que retiro  em meio às flores e o cheiro da caatinga a minha fonte do latejar da inspiração.

Não nasci brasileiro nem pernambucano. Nasci sertanejo. É aqui que busco e encontro as forças onde não existem em lugar algum. Busco sorrisos em meio de lágrimas.Tenho esperança mesmo no final do túnel.

Levanto ainda que seja para cair de novo. Amo inclusive aqueles que me odeiam, que só gostam do elogio fácil e da bajulação inútil. Prefiro o sorriso sincero do sertanejo bafejado pelas intempéries da seca e do abandono secular do poder público ao político hipócrita. A simplicidade é a verdadeira beleza da humanidade, aprendi com meu pai, um homem extremamente cordato, que trata todos iguais com o seu "oi, beleza".

Sertão é Guimarães Rosa, pedaço de chão, segundo ele, onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Foi também o mesmo Guimarães que disse que sertão é uma espera enorme. Quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas.

A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Tão amante sertanejo foi Luiz Gonzaga, rei soberano da caatinga. Deixou patenteada essa belíssima frase: "Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o Sertão, que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor".

Catulo da Paixão Cearense cantou: " Coisa mais bela/ Neste mundo não existe/Do que ouvir-se um galo triste/No sertão, se faz luar

Parece até que a alma da lua é que descanta/Escondida na garganta/Desse galo a soluçar". 

Estou deserdado do Sertão desde os 17 anos de idade. Meu pau de arara até Recife e depois a Brasília foi ônibus sem leito. Eu deixei a minha terra, mas dela meu espírito e alma nunca deserdaram. Meu frasear é oxente, sou vaqueiro valente, como cuscuz com carne seca, sou da terra semente de felicidade. 

Meu gostar é diferente. Gosto de moda de viola e das coisas do sertão; gosto de pessoas simples, cuidar da natureza; gosto de mulher bonita, de falar de amor e das coisas do coração.

Publicado em: 08/08/2020