Depois de vencer a seca, dobramos o preconceito

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar/ Eu venho lá do sertão/ E posso não lhe agradar/ Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar/ E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo/ Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar.

Na boiada já fui boi, mas um dia me montei/ Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse/ Que qualquer querer tivesse/porém por necessidade/ Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu.

Fui dormir cantando Disparada, de Jair Rodrigues, em comemoração à ousadia, a valentia e o talento do meu Sertão da bola e não da seca e da fome, simbolizado pelo Salgueiro, o Carcará, bicho que avoa que nem avião, que quando vê roça queimada sai voando, cantando.

Ao nos dar, sertanejos, o primeiro título de campeão pernambucano, o Carcará pegou, matou e comeu com o seu bico grande a minha cobrinha coral. Estaria ferido de morte, sangrando por dentro e por fora, se a morte matada no gramado tivesse sido pelas garras do leão ou pela mordida do timbu. Mas crime de amante amado com cheiro de marmeleiro, canto de acauã e doce feito rapadura se prescreve, não faz morada no coração nem arranha a alma.

Antes de ser tricolor desde o ventre da minha mãe Dó, com berro passado em cartório com letras vivas em Afogados da Ingazeira, sou sertanejo. Dos bons, autênticos e fiéis, que não se dobram a luxo nem a riquezas. Que estufa o peito vertendo lágrimas poéticas, de um berço sagrado pelo repente da prosa fácil, metrificada na inspiração do rio Pajeú, o Pajeú das flores e dos encantos mil.

O Carcará matou a nossa sede por um título, a nossa fome de justiça. Fez de Asa Branca o hino pernambucano, o azul da bandeira avermelhou, o arco-íris virou gibão e chapéu de couro. Antes de dominar a bola no pé feito Pelé e Garrincha para cantar de galo na capitá, fomos vaqueiros, percorrendo pastagens, preenchendo o espaço vazio dos sertões com seus aboios de tristeza e de saudade.

Sempre montado a cavalo, cuidamos do gado, enfrentamos diariamente o sol escaldante e a constante seca da caatinga, sem descanso, sem divagações. O vaqueiro é nosso orgulho, ícone do imaginário popular, herói mitológico, guerreiro romântico da caatinga, sustentado na sua fé e na sua força física.

O Carcará venceu o preconceito, nos fez mais arretado. Em pleno Arrudão das Repúblicas Independentes, comemorou a façanha com xote, xaxado e baião. Vai ser recebido hoje em Salgueiro com honras de rei. A sanfona vai anunciar uma canção gloriosa, com zabumba batida do coração, ritmo e compasso do triângulo.

O futebol arte do Carcará tem tudo a ver com Patativa do Assaré, que dizia que seus versos são como semente: nascem arriba do chão. A rima cadente do Carcará é parte, sem dúvida, das obras de uma criação enraizada no chão ardente da mesma fornalha que faziam brotar os versos de Patativa.

Viva o Carcará!

Publicado em: 06/08/2020