Coluna da sexta-feira

O chefe é Geraldo Júlio

O engraçado das operações da Polícia Federal em Pernambuco, especialmente no Recife, já a quinta com a de ontem, é que não chegam aos gabinetes dos chefes, de quem de fato dá a ordem para todo tipo de falcatruas – o governador Paulo Câmara e o prefeito Geraldo Júlio. São eles os principais responsáveis por tudo, mas a justiça só bate à porta dos ordenadores de despesas. Ninguém tem o poder de ordenar um centavo sem o aval do chefe.

No Rio de Janeiro, no Pará e em outros Estados a PF invadiu até as residências oficiais dos governadores, mas Pernambuco é uma ilha, não está no Brasil, na visão da chefona da PF no Estado. Aqui, a justiça federal proíbe até a Polícia Federal a cumprir de forma exitosa a sua missão, negando o pedido para prisão de auxiliares do prefeito – oito ao todo – envolvidos na malandragem da gatunagem aos cofres públicos.

O que mais agride ao bom senso da sociedade, que paga seus impostos em dia, é uma malandragem envolvendo dinheiro destinado pelo Governo Federal para salvar vidas. Quantas almas não teriam escapado da morte se a Prefeitura tivesse adquirido de fato respiradores apropriados, aprovados e testados pela Anvisa, e não usados em porcos? Quem comete um mal dessa magnitude não merece o respeito de ninguém. Merece, sim, a jaula, ver o sol nascer quadrado.

O que levou a justiça federal, pelo amor de Deus, a não permitir a prisão de oito pessoas da estreita confiança do prefeito do Recife? Essa história do prefeito de estufar o peito e dizer que não tem culpa no cartório por ter anulado a compra é balela, soa mal aos ouvidos de quem entende um mínimo de pilantragem e de licitações sadias, dentro da forma da lei.

Todos os que estão envolvidos na operação da Polícia Federal não tiveram autonomia para cometer nenhuma ilegalidade. Só agiram, vale a ressalva, mediante autorização do chefe, o prefeito, que controla até os centavos que saem dos cofres da viúva por ser excessivamente centralizador. Enquanto a Federal continuar fazendo essas operações para inglês ver não adiantará nada, não se chegará a lugar nenhum. O alvo tem que ser o chefe.

E o chefe Geraldo Júlio ainda fica posando de bom moço, como se o mundo não tivesse desabado em sua cabeça. Desabou, sim, com implicações políticas que terão forte repercussão nas eleições municipais de novembro. O que o PSB, ele e Paulo Câmara estão fazendo com o dinheiro meu, seu e nosso é um acinte, um soco no estômago da sociedade pernambucana.

Prisão negada – Oito auxiliares do prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), entre eles o secretário de Saúde, Jailson Correia, e o diretor financeira da área de Saúde, Felipe Bittencourt, um dos seus operadores, estavam com mandado de prisão na operação de ontem da Polícia Federal, a quinta, na sede da PCR, mas escaparam graças à justiça federal, que negou o direito da PF de levar todos ao xadrez. O pedido da prisão está em documento da PF revelado com exclusividade por este blog. Sem direito a prender ninguém, os agentes federais ainda bateram ponto na casa dos operadores do prefeito, entre eles Felipe Bittencourt, o principal.

Homem-bomba – Já em outro documento, desta feita do Ministério Público Federal, também revelado com exclusividade pelo meu blog, aponta que os secretários Jailson Correia (Saúde) e João Guilherme Ferraz (Governo), da equipe do prefeito do Recife, mesmo alertados de que os respiradores que estavam sendo comprados haviam sido testados em porcos, autorizaram a operação financeira, só cancelada depois que vazou na mídia pernambucana. Se o diretor financeiro da Secretaria de Saúde, Felipe Bittencourt, afastado ontem das funções em razão da quinta operação da Polícia Federal, por sua vez, botar a boca no trombone, cai toda a república instalada na Prefeitura do Recife por Geraldo Júlio.

O que a PF descobriu – "Felipe Bittencourt é quem autoriza os pagamentos e faz os empenhos da Secretaria de Saúde. Nesse caso específico, ele assinou um relatório descritivo para autorizar a contratação de uma empresa quase um mês depois do começo do fornecimento dos materiais, apesar de o relatório estar sem data", disse a delegada Mariana Cavalcanti, responsável pelas investigações. "Praticamente todos os recursos de combate à pandemia vieram do SUS [Sistema Único de Saúde]. Em um empenho específico, ele [Felipe] anula e altera a fonte para um recurso ordinário que aparentemente nem existe. Ele fez toda essa engrenagem para provavelmente fugir da fiscalização, colocando uma parte da nota das máscaras como recursos ordinários da Prefeitura", acrescentou.

Bal Masqué – Batizada de Bal Masqué, referência ao nome do tradicional baile de carnaval realizado anualmente no Recife, a operação da PF fez levantamentos iniciais sob a responsabilidade da Controladoria Geral da União (CGU) e encontrou irregularidades na execução dos valores contratados, gerando suspeitas de que a empresa contratada seria de fachada. "O que a gente percebeu é que foi adquirida uma grande quantidade de máscaras, aventais e toucas de uma empresa de Pernambuco, com dispensa de licitação devido à emergência da pandemia. Essa empresa recebeu pagamento integral no mês de abril, mas sequer tinha adquirido os materiais. A quantidade que eles adquiriram depois para entregar foi bem inferior à que eles venderam", explicou a delegada Mariana Cavalcanti.

CURTAS

PREJUÍZO – Segundo ainda a Polícia Federal, a ocorrência de pagamentos por itens não entregues pode ter causado um prejuízo de aproximadamente R$ 7 milhões aos cofres públicos. Desse total, R$ 4 milhões seriam de máscaras que não foram entregues. Ainda de acordo com a PF, a empresa é a Deltamed. Vários veículos de comunicação estiveram na sede da empresa, no bairro do Zumbi, no Recife, tentaram contato com os donos ou funcionários, mas não encontraram ninguém para falar sobre a operação. Dos 11 mandados, nove foram cumpridos no Recife e dois na cidade de Jaboatão dos Guararapes, na Datamed e em outra empresa do mesmo dono, em endereços dos sócios dos empreendimentos e em residências de servidores da Prefeitura.

ACREDITE SE QUISER – Por meio de nota, a Prefeitura do Recife informou que “todas as contratações e compras feitas pela Secretaria de Saúde para a emergência da Covid-19 têm sido realizadas dentro da legalidade e enviadas ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), Controladoria Geral da União (CGU), Ministério Público Federal (MPF) e Ministério Público de Pernambuco (MPPE), por iniciativa da própria Prefeitura”. A gestão municipal disse, ainda, que todas as máscaras compradas "foram devidamente recebidas e estão sendo utilizadas pelos profissionais de saúde nos hospitais".

LIVE COM JOICE – Excepcionalmente, a segunda live da semana deste blog pelo Instagram será realizada, hoje, às 18 horas, tendo como convidada a ex-líder do Governo Bolsonaro na Câmara, Joice Hasselmann (PSL-SP), rompida com o presidente, hoje respondendo também pela Secretaria de Comunicação da Câmara dos Deputados. Se você quer acompanhar e ainda não nos segue pelo Instagram, vá lá e nos siga no @blogdomagno.

Perguntar não ofende: Quais os desdobramentos da operação da Polícia Federal ontem na Prefeitura do Recife?

Publicado em: 23/07/2020