Coluna da quarta-feira

Minha relação com Lula

O cancelamento da live do ex-presidente Lula neste blog, ontem, 24 horas após a confirmação oficial pelo assessor de Imprensa, Zé Crispiano, com quem fiz uma longa negociação nos últimos 40 dias, acompanhada de perto pelo petista, não foi um soco no meu estômago. Na verdade, foi uma violência contra o Nordeste, região que Lula ainda detém um público cativo, muitas vezes fanático.

Lula ia falar para cerca de três milhões de nordestinos só pela expansiva rede de rádios que montei além de Pernambuco, isso sem contar a visibilidade das redes sociais, via transmissão do Youtube, Facebook e Instagram. Acrescida as 40 emissoras de Pernambuco iriam se integrar mais de 20 na Paraíba, 18 em Alagoas, dez em Sergipe, três no Rio Grande do Norte e mais de 30 no Ceará. Também havia manifestações favoráveis de rádios da Bahia, Maranhão e Piauí.

Tão logo postei, centenas de mensagens foram chegando ao blog manifestando satisfação pela oportunidade de ouvir o pensamento do ex-presidente sobre a crise nacional, a pandemia, sua fase na prisão, as acusações que ainda lhe pesam e, principalmente, o seu futuro político, além das eleições municipais e a estratégia do PT de retomar o poder pelas prefeituras mais importantes do País com vistas ao embate presidencial de 2022.

Estranhei o recuo de Lula, com quem tenho uma relação profissional desde a época em que era líder do PT na Câmara dos Deputados, já de olho na Presidência da República. Quando queria falar para o Nordeste, era a mim que Lula recorria. Naquela época, dirigia a sucursal do Diário de Pernambuco, o jornal mais influente e poderoso da Região. Na campanha, viajei com Lula para Cuba numa missão oficial para cobrir uma visita de empresários interessados nas experiências exitosas da ilha cubana em algumas excelências, como educação e saúde.

Na volta de Havana, Lula, aliás, me concedeu uma longa entrevista falando sobre as impressões de Cuba, seu encontro em separado com o ex-presidente Fidel Castro, a quem tivemos a bela e histórica oportunidade de entrevistar também, eu e mais três colegas da mídia nacional. Lula, portanto, sempre foi atencioso e cordato comigo. Não acredito que tenha prevalecido a vontade dele em cancelar uma entrevista 24 horas após confirmar, sem que seu assessor tenha apresentado uma justificativa plausível.

Tudo que vi – Tanto na ida para Havana quanto na volta presenciei cenas de Lula com seus convidados, numa viagem de oito horas, que, publicadas, dariam muito que falar. No meu livro Histórias de Repórter, o último que lancei, falo com detalhes tudo que presenciei, inclusive o farto banquete que Fidel ofereceu à comitiva, com direito a pratos e kitutes só vistos nas mesas granfinas do primeiro mundo, enquanto pelas ruas da capital cubana víamos a fome estampada na cara dos ilhéus, cena que doía e comovia. O tempo, como dizia Collor, é o senhor da razão.

Live com Joice – No lugar de Lula eu convidei e ela aceitou de bom grado a ex-líder do Governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, Joice Hasselmann, do PSL de São Paulo, atualmente secretária de Comunicação da Casa, cargo criado pelo presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ). Logo no início da gestão do capitão, Joice era uma ovelha fervorosa do bolsonarismo, mas hoje atua na oposição batendo de frente em comissões parlamentares de investigação bem polêmicas e na crista da onda, como a CPI das Fake News. É autora, dentre outros projetos apresentados na esteira da pandemia do novo coronavírus, que criam novas despesas para o governo, o que prevê a suspensão por quatro meses do uso de cartões corporativos do Palácio do Planalto.

Gastança – O Cartão de Pagamento do Governo Federal (CPGF) é usado para despesas próprias, enquadradas como suprimento de fundos, inclusive em viagens, de integrantes do governo, como o próprio presidente, ministros e servidores. De acordo com dados do Portal da Transparência, em 2020 já foram gastos R$ 6,07 milhões, distribuídos em faturas de 1643 cartões, além de R$ 13,9 mil por meio do Cartão de Pagamento de Compras Centralizadas (CPCC), utilizado para a compra de passagens aéreas. Os gastos de Bolsonaro são considerados sigilosos. No ano passado, a Secretaria Especial de Administração da Presidência desembolsou R$ 9,1 milhões.

Afastado – O prefeito de Paulista, Júnior Matuto (PSB), foi afastado do cargo, ontem, após o cumprimento de mandado de suspensão de exercício de função pública durante as operações Chorume e Locatário, da Polícia Civil. Elas investigam fraudes em contratos com uma empresa de limpeza urbana e um esquema de dispensa de licitações para aluguel de prédios públicos, respectivamente. De acordo com a Polícia Civil, a Operação Locatário envolve o prefeito de Paulista, seis servidores públicos e o dono de uma empresa de locações. O esquema desviou cerca de R$ 900 mil, segundo as investigações.

CURTAS

DESVIOS – Júnior Matuto também foi um dos alvos dos mandados da Operação Chorume, que investiga a fraude em licitação envolvendo uma empresa de limpeza urbana do município de Paulista. A suspeita é de que o valor desviado seja de R$ 21 milhões, de acordo com a Polícia Civil. Além do prefeito, o casal dono da empresa e seis servidores municipais são investigados. Durante o afastamento de Júnior Matuto, a administração do município fica a cargo de Jorge Carreiro (PV). O então vice-prefeito de Paulista, que também é presidente do diretório estadual do Partido Verde, assumiu a gestão em cerimônia de posse realizada na Câmara de Vereadores.

OPERAÇÃO – A Operação Chorume investiga uma fraude em licitação envolvendo a empresa I9, pertencente ao grupo Locar, contratada para prestar serviços de limpeza urbana por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) em Paulista. Os mandados também foram cumpridos em endereços da empresa nas cidades do Recife e de Caruaru, no Agreste. Além do prefeito Júnior Matuto, o casal dono da empresa e seis servidores municipais são investigados pela operação. As irregularidades na PPP foram constatadas por uma auditoria do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

PAGAMENTOS – "Toda PPP prevê um investimento inicial por parte da empresa, mas nesse caso de Paulista, a empresa não fez o investimento previsto. Sem esse dinheiro, a parcela paga mensalmente pela Prefeitura deveria ser menor. Pela auditoria, foi encontrada uma diferença mensal de R$ 400 mil", explicou o auditor Edgard Pessoa de Melo, responsável pela Divisão Sul da Gerência de Auditoria de Obras Municipais. A auditoria constatou que, mensalmente, a Prefeitura pagava R$ 2 milhões à empresa, mas o valor que deveria ser pago era algo em torno de R$ 1,6 milhão. Entre os anos de 2013 e 2017, foram contabilizados R$ 21 milhões em pagamentos irregulares.

Perguntar não ofende: Quem fez a cabeça de Lula para ele não falar ao Nordeste?

Publicado em: 21/07/2020