O prefeito que não roubava e devolvia dinheiro

No regresso a Afogados da Ingazeira, minha terra abençoada pela riqueza poética raiz do Rio Pajeú, renovei meu estoque de histórias da política com o Google Heleno Mariano, baú de casos e causos. Foi uma tarde de boas gargalhadas, ontem, ao lado do mano Augusto Martins, vereador de quinto mandato, Júnior, irmão de Heleno. Também Cida, esposa de Heleno, e suas filhas Flaviana e Fernanda, além de um jovem interessado em beber na fonte da cultura e da política quando rompe a sua dura rotina de delegado na vizinha Carnaiba, o curitibano Guilherme e a defensora pública Micheline.

Heleno é irmão do ex-deputado Antônio Mariano. Apaixonado por política, já foi vereador em Afogados e candidato a prefeito. Seu doutorado em prosa política foi conquistado na universidade da vida, em comícios históricos, rodas de saraus que a poesia pajeuzeira embeleza e enobrece, ouvindo testemunhos de quem abraça o exercício do poder, seja na firmeza do coronelismo ou pela arte dos sedutores, cuja arma na política é a palavra que dobra até os mais céticos.

Baú de histórias que nunca se esgota, Heleno conta o passado e o presente com detalhes tão ricos que parecem escritos em livro, mas na verdade são retirados da sua memória privilegiada. A que mais me chamou atenção ontem foi jogada na mesa de prosas pelo meu irmão Augusto e diz respeito a uma figura lendária, que marcou sua passagem pela Prefeitura da princesinha do Pajeú, com seriedade e zelo na coisa pública.

Refiro-me a João Alves Filho, cujo vice-prefeito foi meu pai Gastão Cerquinha. Joãozinho, como era tratado carinhosamente, nunca roubou nem deixou roubar, preceito ulyssiano, do velho Ulysses Guimarães, o Senhor Diretas, que em seu discurso de promulgação da Constituinte Cidadã em vigor, afirmou: "A moral é o cerne da pátria. A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune toma nas mãos de demagogos que a pretexto de salvá-la a tiranizam", acrescentando:

"Não roubar, não deixar roubar, por na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública. Não é a Constituição perfeita. Se fosse perfeita seria irreformável". Seu Joãozinho parece ter bebido dessa fonte muito lá atrás. Era um homem que prestava conta do dinheiro público tostão por tostão.

A história que me impressionou diz respeito a sua obstinação em tirar do papel a sede própria do fórum municipal. Na época, o governador era Roberto Magalhães, que vivinho e saudável na vida, pode testemunhar. Depois de cumprir todas as exigências da lei, Joãozinho conseguiu o dinheiro para o fórum, o construiu em tempo recorde usando menos dinheiro do valor recebido do Estado.

Para surpresa do governador, Joãozinho pede uma audiência e entra no seu gabinete com uma sacola de dinheiro para devolver aos cofres públicos do Estado o que sobrou do valor liberado e investido na obra do fórum. Doutor Roberto quase cai da cadeira. "Eu vim devolver o que sobrou. Está aqui", disse o decente prefeito jogando a sacola de dinheiro em cima do gabinete de despacho do governador no Palácio do Campo das Princesas.

Não se trata de história de trancoso nem de mãe fada que embala sono de menino buchudo. Segundo Augusto e Heleno, a prova está documentada numa entrevista sobre o episódio do próprio Joãozinho, resgatada por um grupo de pesquisadores da cidade. Nessa mesma fala, ele conta que voltou com o dinheiro, mas depois de ser autorizado pelo governador a usá-lo na compra de móveis na montagem do fórum.

Para os tempos atuais de gatunagem, de assalto aos cofres públicos com o dinheiro sagrado para salvar vidas na pandemia, um exemplo notável que devia ser contado principalmente nas aulas da história do município de Afogados na banca escolar.

Grande Joãozinho! Seu único erro, pecado imperdoável, foi ter posto abaixo, transformado em ruínas, o velho, romântico e histórico coreto, cenário até de comícios com discursos antológicos versados no debate ideológico da Arena versus MDB.

Publicado em: 12/07/2020