Meu pai e sua lição guimariana de coragem

A pandemia mata e faz sangrar algo também muito terrível: o coração. Saudade também mata. O isolamento social imposto pela Covid-19 cortou o cordão dos meus beijos, carinhos e ternura até antes inquebrável com o meu pai Gastão Cerquinha, em Afogados da Ingazeira. Estou me preparando para botar os pés na estrada em busca de mais um reencontro com ele. Não suporto ficar mais sem vê-lo. Temos um grupo familiar no WhatsApp para os cuidados pessoais dele. Não é o suficiente. Alivia, mas não cura a dor da saudade.

Meu pai está com 98 anos. O avançar da estrada da vida o deixa cada dia mais frágil. Caiu num embrulho que ainda desata, mas dá trabalho. Por vezes, não reconhece mais os filhos, a memória perde as baterias das lembranças amorosas do passado. Mas continuo amando ele por inteiro, retribuindo o ombro amigo que passou a vida dando para me derramar em lágrimas, consolo das angústias que o mundo joga sem piedade em nossas vidas.

Quando a vida me machucou, ele passou bálsamo. Quando me vi nas trevas e dolorido, me tirou os  espinhos que machucaram. Nunca me deixou andar sozinho. Minha alma se ilumina pelo seu olhar, que tem outro brilho. 

Quando me chama de filho e de amigo, sinto que amor de pai é sagrado. Ele é minha vida, eu sou seu sangue da herança contínua. Somos nó que não desata. Tronco e raiz de baraúna, a árvore mais frondosa do Sertão. Somos dois caminhos que dão na mesma estrada.

Amor de pai é um amor que não tem fim, só começo, estrofe inacabada. Tudo suporta, perdão que liberta. Não deixa uma lágrima sem enxugar. Seu semblante de velho guerreiro, imagem que da minha mente não sai. Seus cabelos brancos e rosto cansado retratam o semblante de um homem honrado. Nos momentos que mais precisei, nunca me faltou. Me cobriu de amor, me amparou, me resguardou, foi meu anjo da guarda.

Se para ele pudesse fazer uma canção diria que meu velho será sempre meu rei. Chorou por mim, enxugou minhas lágrimas quando o mundo me fez chorar. Ensinou-me coisas belas, fez mais fortes as batidas do meu coração. Ensinou-me também a correr atrás dos meus sonhos. Me criou para o mundo, mas o meu mundo é ele. 

Pena que o tempo tenha trazido a senilidade e roubado a sensibilidade dele, como poeta e jornalista nato, de se emocionar com cada frase que escrevo hoje para ele. Gostaria de tê-lo de volta nos tempos em que vibrava com cada texto que saia do meu coração como declaração de amor a ele e ao nosso Sertão.

Ele leu muito Guimarães Rosa que dizia que o Sertão é tênue tecido alaranjado passando em fundo preto da noite à luz, terra onde o vento não deixa tamanho. Papai me ensinou a lição básica do guimarianismo:

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Publicado em: 08/07/2020