Meus tempos de escuridão e do Barcelona

Nascido entre o símbolo do mandacaru e a fecundidade poética da viola e do repente brotante do Rio Pajeú, vivi até os 18 anos em Afogados da Ingazeira, a 386 km do Recife. Uma época em que não havia estrada pavimentada para pegar o prumo da capital. Só nos restava comer muita poeira na cara até Arcoverde, confluência da BR-232, sonho realizado por Nilo Coelho, governador biônico, das barrancas do São Francisco.

Época também que não havia energia gerada pelas turbinas de Paulo Afonso, cantada e decantada por Luiz Gonzaga. Tempo em que um velho gerador, que a gente chamava casa de energia, impunha hora para nos levar ao abraço da escuridão: dez da noite.

O aviso vinha por meio de três apaga e desliga do sistema a partir das 21h30. Era como um anúncio ou uma ordem: vai pra casa te recolher. Era a hora de preparar o candeeiro, acender vela e pegar o lampião. Quando o motor do gerador quebrava, demorava uma eternidade para sanar o problema, porque as peças só eram encontradas em São Paulo.

Tempo, entretanto, feliz. Sem notícias das terras civilizadas, a praça era o nosso shopping: parque com canoas, algodão doce nas barracas, quebra-queixo, cocada, raspa-raspa, confetes e serpentinas quando chegava o carnaval. A praça era do povo. Palco de comícios, procissões, novenas e pastoris, disputa sadia entre os torcedores das meninas mais bonitas que representavam o azul e o vermelho. 

Afogados da Ingazeira também era movida a esportes e já exportou até jogador para a seleção brasileira, o Deinha, de quem levei muitos dribles nas peladas. Deinha jogou no Santa Cruz depois de ser descoberto por um olheiro do tricolor do Arruda. Revelou-se um craque, volante do futebol arte.

Era filho de Zé Pretinho, trabalhador da roça que perdeu o juízo com o tempo das secas inclementes que transformam em pó todos os roçados. Mas virou um doidinho engraçado. Vivia a andar descalço para baixo e para cima entre as ruelas da cidade. Certa vez, ao passar em frente a uma farmácia, se deparou com uma jovem vomitando, quando quis saber o motivo. Como resposta disseram que a moça tinha sido comida. De pronto, ele não perdoou: "E o cabra já foi preso?"

Foi no futebol, mas de salão, que vivi uma das fases mais felizes em Afogados da Ingazeira. Criei o Barcelona, comandado pelo abnegado técnico Ademar, na foto o primeiro à direita. Joguei muito pouco e vivia na reserva, mas o time ganhou fama na região, teve o seu reinado e tinha até torcida organizada de mulheres, sob o comando de Mariana Siqueira e Ana Lúcia. De tão apaixonadas, elas choravam quando a derrota batia a nossa porta.

Na foto que ilustra esse texto, o primeiro elenco era formado por Marcelo, meu irmão, primeiro à direita, o goleiro. Na defesa, Miranda e Roberto de Cabo Paulo formavam uma dupla perfeita. À frente, Pé de Banda, grande artilheiro, e eu, o do meio entre os agachados, só para atrapalhar. Com o tempo, vieram os reforços que nos levaram aos píncaros da glória, com taças e troféus conquistados na região.

Entre os novos atletas, Bartô Garcia, carne de pescoço na batida nos adversários; Alex, craque com C maiúsculo, e Wanderley Galdino, nossa grande estrela, pai da pentatleta Yane Marques. Tinha ainda um grande goleiro, Genecy, que nos livrou de grandes derrotas. Eu era o "Carinha" do Barcelona, apelido que ganhei no cabaré de uma mulher da vida, que me achou muito parecido com mamãe e berrou na frente da minha turma da pesada: "Ele é a cara da mãe". Para abreviar, ficou Carinha.

O Barcelona é um rio de saudade perene. A pior saudade é aquela que se sente, mas com a triste realidade que não é possível ir atrás. É, na verdade, o preço que se paga por viver momentos inesquecíveis. O destino une e separa. Mas nenhuma força é grande o suficiente para fazer esquecer pessoas que por algum motivo um dia nos fizeram felizes.

Quem pensa que a distância faz esquecer, esquece que a saudade faz lembrar. Quem inventou a distância que separa a dor da saudade nunca sofreu a dor dessa mesma saudade. O poeta Antônio Pereira me inspirou a concluir recorrendo a um verso universal da sua lavra:

"A saudade é um parafuso
que quando a rosca cai
só entra se for torcendo
porque batendo não vai.
Mas quando enferruja dentro 
nem distorcendo não sai".

Publicado em: 05/07/2020