Jornalista Hugo Studart refor├ža time de articulistas

O premiadíssimo e talentoso jornalista Hugo Studart, hoje  professor e doutor em História Política do Brasil, depois de passar por redações as mais afamadas do País atuando em Brasília, onde o conheci e com ele criei uma amizade sólida, se integra à equipe de articulistas deste blog, para minha alegria e deleite dos leitores. Seu texto de estreia trata da instabilidade na cadeira do Ministério da Educação, desde ontem ocupada já pelo quarto ministro em um ano e meio de Governo, recorde da história da República.

Studart trabalhou como repórter, editor, colunista ou diretor nos principais veículos de imprensa do País, como Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, revistas Veja, Dinheiro e IstoÉ. Na área acadêmica, atuou como professor de Jornalismo, Ciência Política e História em instituições como a Universidade Católica de Brasília, a Faculdade Casper Líbero, São Paulo, e a Universidade de Brasília, UnB. 

É membro acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia de Letras de Brasília. Seu livro mais recente, "Borboletas e Lobisomens - Vidas, sonhos e mortes dos Guerrilheiros do Araguaia", foi adquirido e indexado no Catálogo Mundial de obras referência (WorldCat) por 18 universidades estrangeiras, como University of California, Stanford, Chicago, Michigan, Toronto e as Bibliotecas do Congresso (EUA), New York Public e The British Library. Bem-vindo, grande Hugo Studart!

Abaixo, o seu artigo de estreia:

As escolhas de Bolsonaro para o MEC

Por Hugo Studart

Stefan Zweig certa feita escreveu cinco ensaios sobre conhecidos episódios, os quais chama de "miniaturas da História", e os reuniu em livro batizado de "Momentos decisivos da humanidade". Inspirando-se nas tragédias gregas -- tramas nas quais o homem tenta controlar o próprio Destino, mas acaba por ser abalroado pelo acaso em alguma encruzilhada da vida -- Zweig defende a ideia da existência de alguns episódios, como a derrota de Napoleão em Waterloo, que pelo que carregam de simbólico, de trágico ou de épico, teriam a força capaz de sintetizar uma época, ou até mesmo de determinar o destino da humanidade. 

Ou o destino de um governo. Jair Bolsonaro esteve nas últimas semanas diante de uma escolha decisiva, a do ministro da Educação. Ele poderia optar por um nome capaz de unir o setor (ou pelo menos parte), alguém de perfil "técnico", um educador que apresente um projeto que jogue luzes em direção ao futuro de nossas crianças e jovens. Poderia optar por fazer emergir outro nome sintonizado com as trevas da discórdia e o discurso do ódio. Ou, ainda, poderia fazer uma escolha política, olhando sobretudo para o presente, tentando agradar as bancadas no Congresso Nacional, das quais precisa tanto para aprovar projetos de governo.

Suas duas primeiras escolhas para a Educação foram ideológicas, sobretudo desastrosas. Ambas, Ricardo Vélez e Abraham Weitraub, se inviabilizaram sozinhos ao optarem pelo discurso do ódio e as trevas da inoperância. Na sequência, ele até tentou um técnico, Carlos Alberto Decotelli, que aliás, tinha uma excelente carreira como professor de Finanças Públicas, primeiro do Ibmec, depois na Fundação Getúlio Vargas, sempre avaliado pelos alunos como professor nota 10. 

Decotelli emergiu como fruto de uma costura de alianças delicadas, extremamente difíceis, iniciadas em março de 2018, quando o general Augusto Heleno aceitou integrar a campanha de Bolsonaro, emprestando-lhe um aval simbólico e informal das Forças Armadas. Heleno então organizou uma equipe para formular um Programa de Governo, equipe esta coordenada pelo general Aléssio Ribeiro Souto, considerado um intelectual lúcido por seus pares. 

Foi nesse momento que se fez uma aliança entre militares, todos conservadores "positivistas" (conforme acusação dos discípulos de Olavo de Carvalho), com um grupo de professores "liberais clássicos" sob a liderança do cientista político Antônio Flavio Testa. Integraram esse grupo os professores como Paulo Kramer, da UnB, Decotelli, Stavros Xanthopoylos e Marcus Vinícios Rodrigues, da FGV, dentre outros.

Esse grupo se dispersou no início do governo, muitos com cargos, outros não. Mas a aliança original entre "militares positivistas" e "intelectuais liberais" permaneceu latente em forma de amizades pessoais. O general Eduardo Villas Bôas ainda procurou agregá-los em torno da discussão voluntária de um novo "Projeto de Nação", segundo batizou. Com a queda de Weintraub, o quarteto de generais que ora tem assento no Palácio do Planalto convenceu o presidente da necessidade urgente de "pacificar" a Educação instalando um ministro "técnico". 

Então apresentaram um leque de cinco opções: Testa, Rodrigues, Decotelli, Stravos e Antônio Freitas, todos eles professores da FGV. Pela proximidade antiga, os generais gostavam mais de Testa e de Rodrigues. Contudo, dois fatores foram decisivos para a escolha de Decotelli. Ser negro, ainda mais com pós-doutorado na Alemanha. Pesou, sobretudo, o apoio decisivo de Paulo Guedes. 

Em janeiro passado, quando era iminente uma mini reforma ministerial (aquela que rebaixou o Onyx e ungiu o general Braga Neto para a Casa Civil), Guedes pressionou muito Bolsonaro para decapitar Weintraub. Foi quando ligou para Decotelli, com quem tinha boa relação dos tempos em que era sócio do Ibmec, e mandou se preparar para ser ministro da Educação, que era só questão de tempo. Decotelli também tinha a simpatia de Elizabeth Guedes, irmã de Paulo e vice-presidente do grupo educacional Kroton. 

Por fim, tinha forte apoio de um velho amigo, vice-ministro da Defesa, o almirante Almir Garnier dos Santos e, por tabela, da Marinha. Deram também a Decotelli a opção de ser presidente do Banco do Nordeste. Enfim, ele tinha o Mundo aberto a seus pés. Mas nenhum de seus amigos desconfiava que ele havia construído uma carreira em cima de mentiras -- o doutorado não concluído e o pós-doutorado inexistente. 

Quando era iminente que Decotelli seria o Escolhido, ele viu-se diante de uma encruzilhada. Poderia ter revelado aos amigos, aos generais e ao presidente sobre as "inconsistências" em seu currículo. Então eles decidiriam se iriam segurar a onda (ou não) caso fosse mesmo para o MEC. 

Decotelli teve seu "instante decisivo" quando se viu diante do convite do presidente. Poderia manter seu segredo e declinar do convite, optando pelo Banco do Nordeste, onde aliás estaria muito à vontade como professor de Finanças Públicas. Mas a ambição pessoal falou mais alto. E a soberba turvou seu pensamento. Avaliou que sua fraude não seria descoberta.

Publicado em: 04/07/2020