Ciro diz ter provas que Bolsonaro é mentor das milícias

Durante 55 minutos, tempo que durou, ontem, a live do ex-ministro Ciro Gomes a este blog, pelo Instagram, foram disparados ataques virulentos ao presidente Bolsonaro e ao ex-presidente Lula. Ciro Gomes, em fase de pré-campanha antecipada à Presidência da República em 2022, acusa o presidente Bolsonaro de ser mentor de uma quadrilha, a de milicianos, integrada pelos seus filhos. Assegura que 70% do eleitorado do Nordeste, da Bahia para baixo, votaram iludidos. “Elegeram um despreparado, boçal, de família bandida, ligada com as milícias e da mamatinha de roubar dinheiro de gabinete”, acusa Ciro, para em seguida afirmar que está seguro no que diz, com a ressalva de que o presidente e seus filhos não o enfrentam com medo. “Eles não me processam, pois sabem que tenho todas as provas. O Queiroz não é do Flávio, é do Jair Messias Bolsonaro, esse cara que está na Presidência”, desabafou.

Sobre as declarações do ex-presidente Lula, ontem, numa live, afirmando que ele (Ciro) vai se constituir num fracasso eleitoral em 2022 maior do que o das eleições presidenciais de 2018, o presidenciável disse que não leva a sério as declarações, porque Lula, segundo ele, não está bem da cabeça. “Diferentemente dele, eu pelo menos estou solto, não é? Não tenho ameaça de prisão. Mas não quero ficar nesse nível. O Lula não está nada bem. Eu conheço Lula há 35 anos e ele está tomado de ódio, frustração. Achava que o povo brasileiro deveria ter descido em Curitiba, destruído a Polícia Federal e ter levado ele para o poder. E isso deformou o Lula. Ele está falando muita bobagem e mentira. E sempre com a expressão do rancor, da mágoa. E eu estou em outra”,afirmou. Abaixo a entrevista.

O senhor já está em campanha à Presidência da República?

Eu sempre estou em campanha. Mas agora tem essa coisa de calendário eleitoral, crise política, militância do PDT e o meu livro, que estou lançando virtualmente.

 É uma autobiografia?

Não, é uma proposta básica de diagnóstico do problema estrutural brasileiro, do modelo econômico falido e, a partir disso, uma proposta de um novo projeto nacional de desenvolvimento, além de conceitos de direita e esquerda, papel do Estado, enfim, um livro de economia política.

Lula andou falando mal do senhor hoje de novo. Disse que em 2022 o senhor vai ter menos votos do que em 2018 e vai ser uma grande decepção. Como o senhor vê essa provocação do ex-presidente?

Diferentemente dele, eu pelo menos estou solto, não é? Não tenho ameaça de prisão. Mas não quero ficar nesse nível. O Lula não está nada bem. Eu conheço Lula há 35 anos e ele está tomado de ódio, frustração. Achava que o povo brasileiro deveria ter descido em Curitiba, destruído a Polícia Federal e ter levado ele para o poder. E isso deformou o Lula. Ele está falando muita bobagem e mentira. E sempre com a expressão do rancor, da mágoa. E eu estou em outra. Não estou nisso por projeto pessoal. Se tivesse, tinha aceitado participar da fraude que ele montou em 2018, quando me chamou para ser o vice dele. Todo mundo sabia que ele não podia ser candidato e eu nunca aceitei, porque acho que o povo merece respeito.

Mas o rancor é dele próprio ou do PT em geral com o senhor?

Hoje, o PT está muito dividido. É que nem as Forças Armadas: projetam que estão unidos, mas dentro não existe essa unidade. Olhando para trás, será que o povo brasileiro virou todo fascista e gado como eles chamam? Será que 70% do eleitorado de São Paulo e do Rio viraram fascistas? A Dilma ganhou do Aécio em Minas e de repente lá em Minas também o povo é fascista? O Sul do Brasil também? Essa coisa descolou da realidade. Veja, por exemplo, a eleição de 2016. Haddad só tirou 16% dos votos para reeleição. E esse foi o homem que o Lula escolheu para ser presidente quando o anti-petismo estava muito forte. O Lula não está preocupado com o Brasil e sim com micro-projeto dele dentro da turma do PT. Pessoas boas estão excluídas e quem dá as cartas são medíocres e com ficha suja. Parece que Lula sente necessidade de travar o debate. Depois de 14 anos, um governo que diz ser de esquerda terminou com a maior concentração de renda do mundo. O pior sistema tributário do mundo, só cobra imposta do trabalhador. Então, tudo isso caiu. Hoje temos cinco milhões de jovens devendo ao FIES. As pessoas não são idiotas e o Lula acha que o povo ainda está nessa de "São Lula". E eu não vou concordar mais com esse tipo de irresponsabilidade, porque isso está ferrando com o nosso País.

Todos dizem e não apenas ele e o PT que o senhor é temperamental, muito difícil de conviver, pavio curto...

No Brasil existe a mania de bater no carteiro para que as pessoas não leiam a carta. Se isso fosse verdade, será que eu teria sido ministro da Integração indicado por ele para fazer o projeto de Transposição. Quando isso passar, sabe o que vai ficar do Governo Lula? Criação de universidades e o projeto do São Francisco. E ele entregou a mim o projeto São Francisco. Depois, eu fui ministro da Fazenda. Claro que eu sou afirmativo, não tenho sangue de barata. Mas fui o governador mais popular do Ceará. E agora, porque estou discordando dessas maluquices, sou pavio curto? O Lula agora é o papa? Ele vai ter que ouvir.

O governador da Bahia, Rui Costa, disse, hoje, que está convencido de que teria sido melhor apoiar o senhor do que o Haddad em 2018. Ele é uma voz isolada no PT?

Ele já havia defendido isso na época. E não é por nada, seria até inteligente, embora eu não estivesse pedindo apoio do PT. Havia claramente uma força que estava derrotada em 2018: o lulopetismo. Rui e Jaques Wagner (ex-governador da Bahia e padrinho de Rui) não têm voz dentro do PT, porque são inteligentes e o Lula prefere se cercar de bajuladores de quinta categoria. O Rui Costa dizer isso é bom, mas não seria bom para mim. O Lula sabia que pela Lei da Ficha Limpa que não ia ser candidato e colocou um cara que tinha perdido a eleição em São Paulo para fazer papel de ridículo. E aí produziram o Bolsonaro.

Eu estive com Pedro Correa há algumas semanas e ele me disse que José Dirceu falava horrores de Lula na cadeia, mas, publicamente, nunca detonou Lula. Por que esse silêncio de Dirceu, o homem forte de Lula, em relação ao ex-presidente?

Zé Dirceu, faça-se a crítica que quiser, é um homem de honra. Em tempos de delação premiada, é preciso pôr em relevo. Mas opiniões de Zé Dirceu em relação a Lula vão morrer comigo, ele também já me revelou seus horrores, mas que vão morrer comigo em respeito a ele.

O senhor falou da Transposição com o início de ter dado o start do projeto, obra essa que foi marcada depois por escândalos de desvios de recursos superfaturados. O que houve?

Tudo isso ocorreu porque o Lula nomeou o Geddel (Geddel Vieira, político baiano). Ele sabia quem era Geddel. E depois das denúncias, ele ainda exigiu a vice-presidência da Caixa Econômica para o Geddel, de onde saiu aqueles R$ 51 milhões nas malas dentro do apartamento de um laranja dele em Salvador. Está na cadeia. Então, repare, o Lula acha que o povo é imbecil. Eu fiz um canal de 120 quilômetros em 90 dias. Tecnicamente, não tem mistério. Faz a água evoluir com bombeamento e derruba ela em declive. Tem tudo no Brasil. Dava para fazer com um terço do valor e em três anos. Virou 14 anos por cinco vezes o valor. 

E Bolsonaro esteve lá e disse que inaugurou uma obra que o PT ganhou muito dinheiro na corrupção...

Bolsonaro sempre foi contra essa obra. Como deputado, votou contra. E se fosse por ele, só 3% do Eixo Norte estaria pronto. Ele demorou um ano e meio para fazer 3%. Se fosse no ritmo de Bolsonaro, essa obra ia levar 40 anos para sair do papel. Então, um viva ainda para a turma que o antecedeu.

Por que Bolsonaro não tem empatia com o povo do Nordeste?

Bolsonaro não tem empatia com gente. É um grande fracassado como pessoa. E olha como o Brasil é. Estava ali numa hora que, com assessoramento estrangeiro, de muita grana suja, chegou aonde chegou. Ninguém fazia ideia do poder dessas fake news, até  aonde podiam chegar em grupos de Whatsapp, Telegram, etc. O Trump mandou um cara chamado Steve Bannon comprar a Presidência do Brasil e o Bolsonaro estava ali na área e topou fazer esse jogo sujo. Mas ele tem como livro de cabeceira um livro de um torturador. No Nordeste, além dele não ter empatia, tem muita raiva porque a jogada dele não colou. No Ceará, por exemplo, ele ficou em terceiro lugar na eleição. Ele não vai perdoar o povo do Nordeste jamais. E ele vomita esse preconceito sempre que pode.

Lula cresceu com o Bolsa-Família. Bolsonaro agora criou o auxílio dos R$ 600 e deu uma melhorada na popularidade no Nordeste. Não seria o caminho da salvação dele apostar em programas sociais?

 O debate sobre isso é que o Bolsonaro tinha proposto um auxílio de R$ 200. Houve uma grande luta para chegar aos R$ 600 ser aprovado. Ele merece o reconhecimento por ter entregado os R$ 600. Ele acabou engolindo. Mas estamos no pior dos mundos: fizemos um isolamento "meia bomba" e a recuperação econômica será mais lenta pela incompetência de Bolsonaro. Teve uma compreensão equivocada, grosseira e trocou de ministros três vezes. Ele mantém 23 militares sem experiência nenhuma no Ministério. Um pára-quedista está cuidando da saúde no Brasil. Ele determinou que comprassem cloroquina e foi comprado por seis vezes o valor. Vai acabar em processo penal contra o exército. Veja aonde chegamos! A economia brasileira vai cair duas vezes e meia o que a economia vai cair no mundo.

No exercício da Presidência da República, como o senhor como conduziria essa crise da pandemia?

Você mencionou uma coisa que explica o Bolsonaro. O Bolsonaro ouve esse tal de Bannon, que é o mesmo do Trump. É o Boris Johnson no Reino Unido, Trump e Bolsonaro. Em linha, com a mesma atitude: anticientífica, cloroquina, gripezinha. E são os três lugares com mais mortes no mundo. Em Pernambuco, morreu mais gente que na China. Se você pegar a América do Sul todinha tem um terço das mortes do Brasil. A diferença é o desgoverno. Quando se deu a pandemia, a OMS anunciou do que se tratava. E aí fiz uma carta aberta ao Bolsonaro com sugestões do que eu faria. Isolamento social radical, um acerto com a China para pegar testes e respiradores para trazer isso para o Brasil, e socorro às famílias e empresas de urgência. Não seria parcelado e sim de uma vez só. Se a gente tivesse feito algumas coisas assim, a situação estaria diferente. Tiro isso de casos como Coréia do Sul, Alemanha, Nova Zelândia, China, Argentina, que fizeram isso e tiveram êxito. Evitaram mortes e diminuíram a repercussão econômica.

Eu estive no Ceará antes da pandemia e constatei avanços na saúde, mas no inicio da pandemia me assustei com os elevados índices de Covid em Fortaleza e no resto do Estado. O que aconteceu?

O Ceará saiu na frente nos testes. Testamos o vírus em grande número de pessoas, enquanto em outros Estados não se via esse diagnóstico não seguro. O vírus não tem vacina nem remédio. O Ceará recebeu um grande contingente de turistas, porque transformou o turismo como mola mestra da economia. Nós tínhamos 48 vôos semanais, com mais de 30 mil passageiros de fora por semana aqui no Ceará. Na hora que a Covid explodiu na Itália, Espanha, Portugal, a gente tentou limitar a vinda dessas pessoas, mas Bolsonaro, através de liminar, conseguiu derrubar isso e nós ficamos recebendo, no auge da pandemia, 40 mil estrangeiros. Também houve uma explosão de casos nos bairros ricos e depois nos bairros pobres. Essa foi a principal razão.

Que tipo de aliança o senhor está pensando para 2022? O senhor bate no PT, no PTB e outros potenciais aliados. Vai sobrar alguém para se aliar?

Sobra a maioria. O tamanho da crise está tão grande que estou naquela dos Titãs: "O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído". É preciso falar com clareza. As tragédias vêm nas costas do povo brasileiro. É uma crise sem precedentes. Nós temos mais brasileiros fora do mercado de trabalho do que dentro. Vai negar a própria confiança do povo na democracia. Daqui a pouco o povo vai entrar no supermercado e pegar o que tiver para comer. Aí vai o presidente e todo dia introduz uma crise política, uma coisa de ex-general dentro do Palácio. Ninguém vai mais aceitar uma ditadura. Eu acho que esse extremismo do PT e do Bolsonaro vai destruir a nação brasileira. Mas acho que isso só alcança 25% da opinião pública brasileira. Eu quero alcançar os outros 50% para tirar o País desse confronto, que já descamba para a violência de rua. Quando acabar a pandemia é provável que o povo vá para as ruas pedir o impeachment de Bolsonaro. Bolsonaro hoje só existe porque ameaça Lula. E Lula acha que o bolsonarismo é tão trágico que vai absolver o PT das bobagens que fez. Nós queremos construir um caminho diferente. Temos que ir à luta.

A eleição se dá em dois turnos. Vamos supor que o senhor chegue lá enfrentando Bolsonaro ou o PT. O senhor aceitaria se compor com o PT para derrotar Bolsonaro ou se compor com Bolsonaro para derrotar o PT?

 Quem se propõe a governar o País tem que ter humildade de apresentar alguns pontos. Para se chegar ao segundo turno tem que ser radical na ideia que eu defendo. Vai que o povo gosta e me dá uma eleição no primeiro turno? Mas só quem é mentiroso como Bolsonaro diz que não vai negociar. Diz que isso é molecagem e tal. Mas para quem quer governar, a negociação é imperativa. A questão é como negociar. Então eu negociaria, sim. Eu vou tentar ganhar a eleição no primeiro turno, apostando no povo. Depois, no segundo turno, você faz alianças com base em algumas concessões. Se você tiver pouca força, as concessões são muito grandes. O fato é que ninguém governa o País sem negociar. E não é bom que isso aconteça.

Mas quem seria mais confiável: Bolsonaro ou PT?

Na política, tudo é subjetivo. A afinidade com o PSB continua. Porque a ideia central do PSB é o socialismo democrático. Com Miguel Arraes, Eduardo Campos e etc. Frustrações são do ramo. Imagina se eu tiver 25% dos votos naquela eleição todo mundo teria ficado comigo. Mas nós tivemos que provar antes. Houve um momento que o Lula colocou a faca na garganta do PSB e disse que se ficassem comigo iria tirar o apoio em Pernambuco e derrotar o PSB com Marília Arraes. A mesma coisa eles fizeram com o PCdoB. Mas o PSB não me enganou. Carlos Siqueira sempre esteve comigo. Mas, enfim, 70% do eleitorado da Bahia para baixo votou num despreparado, boçal, de família bandida, ligada com as milícias e da mamatinha de roubar dinheiro de gabinete. Eles não me processam, pois sabem que tenho todas as provas. O Queiroz não é do Flávio, é do Jair Messias Bolsonaro, esse que está na Presidência.

Com base em quais sustentações jurídicas poderia acontecer o impeachment de Bolsonaro, já que esses supostos crimes teriam acontecido antes do mandato?

É muito importante isso. O Brasil tem usado de maneira muito vulgar o impeachment. Então, só existe um motivo para interromper um governo, que é cometer um crime de responsabilidade. Não é ser por simplesmente um mau governo. Mas, para mim, Bolsonaro comete três crimes de responsabilidade, coisa que Dilma não cometeu. A Dilma era um governo desastrado. Mas a pedalada não é crime. Nunca foi. Todos os governantes fizeram. Bolsonaro comete o crime de constranger ou regular o funcionamento dos poderes da República, quando vai para a porta do quartel-general e diz "eu sou vocês e vocês sou eu" com faixa de intervenção militar e fechar congresso, supremo, AI-5 e etc. Depois, expõe a sociedade brasileira ao genocídio, quando diz que é uma gripezinha. Vai em seguida para a televisão com uma caixinha de remédios banida pela comunidade científica e cabe até representação no tribunal penal internacional. Outro crime é obstrução de justiça quando houve acusações gravíssimas de Sérgio Moro, relacionadas à Polícia Federal. Ele comete esse crime e até diz na reunião que era para proteção de amigos de família. E é por isso que ele precisa ser punido, não é porque é um mau governante.

Publicado em: 03/07/2020