O ambiente Decotelli ou a falĂȘncia das universidades

Por Antonio Magalhães*

Desde que o mundo é mundo existem fraquezas de caráter e também mau caratismo. São semelhantes mas não são iguais. A saída de Carlos Alberto Decotelli do Ministério da Educação é resultante da sua fraqueza em não falar a verdade. Pois, até então ele vinha sendo considerado por seus colegas como bom professor e gestor da área educacional. Sua passagem pelo MEC foi brevíssima: cinco dias de nomeação e sequer tomou posse no cargo.

Tudo aconteceu por conta de inconsistências no seu currículo profissional: acrescentou cursos que não finalizou, outro que não fez, uma tese supostamente plagiada e até teve sua atuação de docente contestada pela Fundação Getúlio Vargas.

Ele errou. Claro. Portanto jamais poderia continuar à frente do MEC para ser contestado a todo instante por acusadores que não têm entre seus objetivos melhorar o ensino nacional, mas inviabilizar ideologicamente a quem se disponha a realizá-lo.

Neste episódio, revelou-se o peso da academia, uma casta de mestres, doutores e pós-doutores, que têm como objetivo o zelo pelo bom nome das instituições de ensino superior. Muito louvável esse objetivo. Mas por detrás disso esconde-se um jogo político de intrigas e desdobramento de interesses pessoais.

Por isso, vale a pena ver o depoimento sobre a política interna das universidades federais de um experiente professor e pesquisador da Federal do Rio de Janeiro, Gláucio Ary Dillon Soares. Aos 86 anos, ele acompanha de perto o que acontece na sua área. E divulgou suas observações pela página aberta do seu Facebook. Vejamos alguns trechos:

“Há uns 15 anos, uma aluna que orientei durante o doutorado se apresentou para um concurso no Paraná. Ela obteve o doutorado numa instituição que, naquele tempo, dividia com a USP o topo das avaliações da CAPES. Tinha publicações dentro e fora do Brasil. Dominava quatro idiomas. Foi preterida em favor de uma paranaense que ainda estudava (numa universidade paulista, não me lembro qual) mas ainda não terminara a tese nem o doutorado. Sem publicações. Uma grande disparidade, dessas que atestam a apropriação de parte dos recursos públicos para beneficiar favoritos da casa e não os candidatos mais competentes”.

Para o professor Gláucio Soares, este é um exemplo dos absurdos que ocorrem em muitas universidades brasileiras. “Posteriormente – acrescentou -, essa mesma pesquisadora zerou um concurso para a  UFMG e, tempos depois, ganhou outro concurso, desta vez para a UFRJ.  Primeira colocada nas duas”.

Noutro trecho do seu depoimento, o professor diz: “Na minha vida tomei conhecimento de outras barbaridades semelhantes. Uma candidata foi desaconselhada por um dos membros da banca a não se candidatar porque era qualificada demais… Em outro concurso, para a cátedra de Políticas Públicas, outra candidata, com artigos e livros publicados e um doutorado sólido pela USP, foi prejudicada por outro tipo de subcultura acadêmica onde não se fazia pesquisa nem havia itens relacionados com o tema da cátedra (Políticas Pública) nos exames. Havia, sim uma pletora de perguntas sobre Filosofia, Filosofia Política e Social, e Direito”.

Gláucio Soares revela que houve durante anos aumento de recursos e de pessoal nas universidades públicas. “Os departamentos arcaicos só contribuíram para que a oligarquia anacrônica desses departamentos aumentasse seu território e seu poder”, explica.

“Hoje, décadas mais tarde, pagamos um preço alto por esses erros. Bons alunos não são aproveitados devido a vieses incrustados na definição do que  é um bom aluno. Não há regras claras sobre o que é um bom docente. O mérito é um esmaecido critério de seleção”, diz o professor.

“Politicamente, houve um boomerang - continua.  Muitos, agindo em nome da esquerda contribuíram com suas postagens para criar as condições para que Bolsonaro nomeasse dois neandertais como Ministros da Educação, indivíduos patéticos que não poderiam ser aceitos para essa função”.

“E permitiu também que Bolsonaro nomeasse para cargo de muita responsabilidade um senhor que afirmou ter um doutorado que não tem, e, além disso, sobre quem paira a dúvida sobre plágio na sua dissertação de mestrado. As universidades brasileiras falharam na missão de produzir uma aura de prestígio, de que são instituições que produzem conhecimento útil. São vistas como instituições burocratizadas e anacrônicas”.

O professor Gláucio Soares ainda alerta: “Não pouco podemos deixar de fora da análise que coloca a ciência e o método científico em segundo planos.  Também precisamos conscientizar-nos que os orçamentos das universidades públicas têm origem em impostos cobrados ao povo brasileiro e não à universidade”.

E conclui: “Foram muitos os erros que formataram institucionalmente universidades que produzem muito menos do que poderiam. Não é por acaso que o Brasil não tem uma só universidade entre as cento e cinquenta melhores do mundo, de acordo com a World University Rankings”.

Carlos Alberto Decotelli teve sua formação neste ambiente analisado pelo professor Gláucio Soares. Onde os privilégios são defendidos com unhas e dentes e a ética passa longe desse processo. Ficaria contente que houvesse contestação. Este é o bom debate sobre o futuro do País.

*Integrante da Cooperativa de Jornalistas de Pernambuco

Publicado em: 02/07/2020