Apreciar um olhar

Por Maria Lucia de Araújo Nogueira*

A elegância no olhar, no conduzir a vida e de sua família sempre foram motivos de admiração de quem preza da amizade de Dona Do Carmo Monteiro. Traçar o perfil de uma grande dama da sociedade pernambucana e pessoa impecável é uma intrincada cascata de fatos: seus pais, Maria Antonietta Bezerra Cavalcanti de Magalhães e Agamemnon Sérgio de Godoy Magalhães, conferiram-lhe condições de frequentar uma das melhores e mais respeitadas escolas do País, o Sacré-Coeur de Marie, no Rio de Janeiro, capital do País, onde ele exercia o cargo de Ministro do Trabalho. Mal sabiam que a permanência da filha naquela Instituição renderia-lhe, além de uma esmerada educação, lapidariam nela uma vida pontuada em valores humanos, sociais e cristãos.

Muito jovem, Dona Do Carmo veio com a família morar no Recife, momento em que chegou a estudar também no Colégio Damas. E, de volta ao Rio de Janeiro, já uma adolescente perspicaz e atenta, conversava e ouvia seus genitores e acompanhava com interesse a vida pública do pai, a quem muito ajudou. Estudou contabilidade, contudo, seu desejo era ser médica.

Não se incomodou com as mudanças que a vida lhe proporcionou, a começar por vir morar no Recife, após seu casamento, em 1949, com o amor de sua vida, Dr. Armando Monteiro Filho. E na constituição de sua família, composta por cinco filhos, ocupou-se com as atividades domésticas e filantrópicas com desenvoltura e traquejo social.

Dona Do Carmo não se descuidava de seu papel de esposa, bem como de conselheira nos negócios da família, imprimindo seu perfil nos lugares em que sua presença era necessária. Ainda hoje ela orienta, verifica o trabalho e atuação de funcionários e nunca aumentou o timbre de voz para se impor. Foi dessa forma que ela conquistou amigos e tornou-se imprescindível onde atuou.

Paralelo às suas funções de mãe, Dona Do Carmo engajou-se em campanhas majoritárias do marido, embora entendesse que o mesmo deveria dedicar-se exclusivamente às atividades empresariais. Foi, também, uma das fundadoras da Casa do Candango, em Brasília, na década de 1960, que prestava assistência aos operários e suas famílias na época da construção da capital federal. De aparência meiga e distinta, dedicou-se a preservar a privacidade de sua família, mantendo em seu lar uma atmosfera de amor, bondade e humildade, forjando homens de têmpera e de envergadura de aço.

Tudo isto que captei sobre a senhora Do Carmo Monteiro, esposa do engenheiro, político, usineiro, banqueiro Dr. Armando Monteiro Filho, com quem esteve casada por espetaculares 68 anos: Um amor feiticeiro, que cheirava a terra molhada e exalava segurança. E, segundo seu esposo, ela “tem forte personalidade e um impressionante dinamismo. É muito querida pela família, pelos amigos e por todos aqueles que a conhecem”.

Assim eram ele e ela, ou eles: um não ficava sem o outro. Estavam sempre juntos, sempre unidos, até que ele lhe foi levado do seu lado em janeiro de 2018, deixando-a sem suas asas protetoras. Seu anjo alçou voo solo.

Não lembro ao certo desde quando nos conhecemos. Tenho a impressão de que sempre a conheço tamanho apreço e carinho mútuos. Recebi, em dado momento de minha vida, uma dose revigorante de sua empatia. Palavras que me encheram de ânimo no mau momento em que eu me encontrava: “Fé em Deus que tudo vai ficar bem”, disse-me Do Carmo.

Assim, para Dona Do Carmo um novo amanhecer sempre lhe sorri, aquecendo sua alma e fazendo-a ver, que, da silhueta ereta e elegante, um horizonte grandioso se descortina sob seu olhar vigilante. Sua imagem carismática sorri para a vida, sorri enlevada para todos, filhos, netos, bisnetos, amigos.

*Advogada e poetisa

Publicado em: 05/06/2020