O coreto que levou ao rompimento polĂ­tico

Na sequência da série historinhas do tronco familiar, mais uma do fundo do baú do meu pai Gastão Cerquinha, 98 luas, que não se cansa de contemplar o luar do Sertão no galope do avançar do tempo que Deus nos dá e guarda. Zeloso pela coisa pública, sempre soube ao longo da sua trajetória, seja como vereador ou vice-prefeito de Afogados da Ingazeira, se posicionar ao lado da maioria pelas grandes causas sociais e humanitárias. Postura que o distinguiu e por pouco não o fez chegar ao posto de prefeito, sonho que embalou por muitos anos.

Vereador por quatro legislaturas consecutivas, papai integrou o grupo político do ex-deputado Josesito Padilha, cassado depois de atirar num juiz sob a alegação de ter sido vítima de fraude eleitoral. A fatalidade levou Josesito, agitado, temperamental e brizolista convicto, a se refugiar no Uruguai ao longo de todo o período em que os banidos pelo regime militar foram levados a um exílio forçado fora do País.

De Montevideo, Josesito recebia notícias da sua província pajeuzeira através de cartas remetidas por papai, a quem só se referia como o bombeiro do seu grupo. De fato, diferente do chefe, meu pai primava pelo tom moderador. Nasceu talhado e vocacionado para promover o bem, unir contrários, somar nas convergências, subtrair nas divergências.

Foi de Josesito, a quem ajudou a apagar muitos incêndios, que papai recebeu o aval para fechar a chapa do ex-prefeito João Alves Filho, da antiga Arena, como vice, mesmo sendo velho militante do MDB. Não foi fácil a convivência. De bem e íntegro, daqueles que prestavam contas do último vintém do erário, João Alves era, entretanto, um homem bruto, uma pedra incapaz de ser lapidada.

O bruto muitas vezes não tem ciência do mundo que o cerca. Por isso mesmo, pratica insanidades. A maior de João Alves levou meu pai ao rompimento definitivo e irreversível: a derrubada do velho e saudoso coreto, praticamente filho da mesma engenharia inicial que pôs em pé a cidade abençoada pelo Bom Jesus dos Remédios. 

Quando viu o trator remover os restos mortais do coreto, não tenho certeza se com a anuência da Câmara de Vereadores ou não, meu pai virou uma fera incontida. Antes, fez de tudo para o prefeito evitar tal atrocidade.

Afinal, o coreto era patrimônio cultural vivo e imortal da cidade. Foi nele que papai dançou a primeira valsa com mamãe ainda namorados apaixonados. Foi do seu pedestal que fez o seu primeiro discurso. O coreto é a alma de uma cidade e da sua gente, palco de festas e serestas, cenário de comícios históricos. O de Afogados era também uma galeria comercial, o minishopping da cidade.

Não sabia o destruidor, que os coretos encontrados no Brasil são uma herança europeia vinda de Portugal no século XIX. Diversas praças passaram a abrigar coretos. No século XX, eram frequentes as apresentações musicais em praças, sendo uma oportunidade de se ver e ouvir pessoalmente os músicos. O coreto representa, na verdade, a encarnação da rua enquanto local de encontro e de festas.

O coreto está para as cidades do interior como a Torre Eiffel para Paris. Foi num coretinho amarelo em Sepetiba, no Rio, que Odorico Paraguaçu, da série global o Bem Amado, de Dias Gomes, fez o hilário  discurso para o povo de Sucupira prometendo se, eleito, construir sua grande obra: um cemitério.

A briga de papai pelo coreto, não sabe ele hoje, o quanto se reveste de beleza e de histórias. Coretos já inspiraram até livros, como A moça do Coreto, de um escritor paraibano, que narra uma linda história de amor em versos de cordel, entre Rosa Maria e Doutor Luiz Ferraz, romance este vivido no Coreto da Praça Manoel Joaquim de Araújo, na cidade de Itabaiana.

O livro é também uma singela homenagem ao centenário do Coreto, que por sua vez é uma das principais obras arquitetônicas da cidade. 
Antonio Costta, o autor, reafirma seu compromisso com a poesia popular nordestina da melhor qualidade, em momento de louvor a um patrimônio histórico, que é o símbolo de nossas tradições culturais.

Publicado em: 02/06/2020