Coluna da segunda-feira

Geraldo e o rei Salomão

Seria cômico se não trágico o prefeito do Recife, Geraldo Júlio (PSB), tentar incutir a ideia entre os mais desatentos e desavisados de que cancelou a maracutaia dos R$ 11,5 milhões para compra  de respiradores de porcos tão logo tomou conhecimento, sendo assim está imputado de qualquer dolo. Ora, até as paredes do Palácio do Capibaribe, local em que bate o ponto no dia a dia, sabem que ele é extremamente concentrador, que não autoriza um centavo sequer de despesas dos cofres municipais sem antes passar pelo seu crivo.

Geraldo aprendeu a concentrar igual poder de controle com o ex-governador Eduardo Campos,  vindo da escola de Fernando Bezerra Coelho, a quem serviu, antes da fama, em Petrolina como auxiliar periférico, sem nenhuma significância. Sabia e sabe, portanto, de todos os trâmites da dinheirama que estava sendo mal empregada numa empresa de fachada em Paulinea, no interior de São Paulo. Não conheço o secretário de Saúde, Jailson Correia, mas soube que foi aluno aplicado e é um bom médico.

Só que, por não ser do ramo da política, caiu no precipício, virou um verdadeiro boi de piranha. O boi de piranha, como se sabe, é aquele que se submete ou é submetido a um sacrifício para livrar outra pessoa de uma dificuldade ou da culpa. O culpado dessa irresponsabilidade tem nome, endereço e identidade: Geraldo Júlio de Mello Filho, nascido na cidade do Recife em 1971, auditor concursado do Tribunal de Contas do Estado desde 1992, projetado na vida pública por Eduardo Henrique Accioly Campos.

Desde a morte do guru Eduardo, Geraldo tenta ser o seu sucessor natural, controlador de tudo e de todos, aproveitando a pouca aptidão do governador Paulo Câmara pelo cargo, cujo poder de decisão é restrito, refém do crivo dele (o prefeito). É tamanha a sua ganância que nomeou praticamente todo o primeiro escalão estadual e ainda interferiu em decisões conflitantes para o governador, como a escolha do recém nomeado conselheiro Carlos Neves, para o Tribunal de Contas do Estado.

Geraldo tem que acabar com essa história de querer ser mais sabido do que o rei. Na história da humanidade, existe uma pessoa cujo nome é sinônimo de sabedoria: o terceiro rei judeu, lendário governante Salomão, que guiou seu povo em uma de suas fases mais prósperas. Seus provérbios continuam em voga até hoje, atravessando milênios. O mesmo Salomão dizia que o que cava um buraco cairá nele, e o que faz girar uma pedra passará por cima dele.

Não sabe Geraldo, ainda recorrendo a Salomão, que aquilo que acontece com um, acontecerá também com o outro. Traduzindo em bom português, o mundo desabou na cabeça do secretário, mas ele sabe quem é o responsável pela tragédia. Chego ao fim com o mesmo Salomão: “Dois são melhor que um, porque, se caírem, um levantará o outro. Mas ai de quem estiver sozinho! Quando cair, não haverá outro para levantá-lo”.

O silêncio dos aliados – Quando a bronca é grande, até os aliados fogem. Com exceção do deputado  João Campos, escolhido por Geraldo para a fogueira da sua sucessão, quem meteu a colher em defesa do prefeito? Houve uma nota cínica de solidariedade ao secretário de Saúde sem incluir a mesma solidariedade a quem de fato decide, o prefeito. A bancada federal vive um silêncio ensurdecedor, mas compreensível. Nem os mais próximos por ligação familiar, como Tadeu Alencar e Felipe Carreras, quiseram meter a mão no angu.

Bloqueio – A Justiça determinou o bloqueio dos bens da empresa HempShare, que deixou de entregar respiradores comprados por R$ 48,7 milhões aos estados nordestinos. A decisão foi tomada após uma ação aberta pelo Consórcio Nordeste – que representa os estados da região – contra a empresa. Os respiradores foram comprados para atender as necessidades dos estados na pandemia do novo coronavírus e o pagamento, antecipado. A compra foi realizada de forma conjunta, pelos estados, através do Consórcio Nordeste, que é liderado pela Bahia e, desde o início da pandemia do novo coronavírus, vem tentando realizar compras unificadas de equipamentos para a região.

Casos zero – Em meio a tantas notícias ruins, chega à informação oficial de que no Estado seis municípios não têm nenhum caso confirmado do novo coronavírus. De acordo com os dados divulgados pela Secretaria de Saúde, dos 184 municípios pernambucanos e Fernando de Noronha, apenas 3,2% deles ainda não registraram pacientes com a Covid-19, doença causada pelo novo vírus. Todas as cidades que não têm registro ficam localizadas no Sertão: Calumbi, Exu, Ingazeira, Manari, Mirandiba e Solidão. Por ironia do destino, são os menores municípios do Estado, de pouca circulação de pessoas que chegam de fora, principalmente de grandes centros, como São Paulo, Estado com o maior número de casos e óbitos.

Glória imoral – Já em Glória do Goitá, na Zona da Mata, o Tribunal de Justiça suspendeu o contrato para instalação do hospital de campanha para tratar pacientes com o novo coronavírus. Segundo a liminar, o imóvel onde a unidade de saúde seria instalada pertence ao espólio da falecida mãe da prefeita Adriana Paes (PR), que, portanto, seria uma herdeira. A decisão foi assinada pelo juiz Gabriel Araújo Pimentel, da Comarca de Glória do Goitá. Na decisão, ele afirmou que o contrato firmado para utilização do espólio de Fernanda Dornelas Câmara Paes, mãe da prefeita, é uma "afronta direta à Constituição".

CURTAS

CENTRÃO NO BN – Em mais um gesto de aproximação do Palácio do Planalto com o Centrão, o presidente Jair Bolsonaro decidiu entregar o comando do Banco Nacional do Nordeste (BNB) para um nome indicado pelo Partido Liberal (PL), sigla liderada pelo ex-deputado Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão. No lugar do atual presidente do banco, Romildo Rolim, assumirá Alexandre Borges Cabral, que já foi presidente da Casa da Moeda entre julho de 2016 e junho de 2019 por indicação de outra legenda do bloco, o PTB. A troca é vista como uma nova sinalização da disposição de Bolsonaro em sedimentar a aliança com os partidos do Centrão e construir uma base aliada no Congresso Nacional na tentativa de barrar um eventual processo de impeachment.

A FORÇA DO BANCO – O Banco do Nordeste é um ativo político valioso devido à sua forte presença junto a empresas, produtores rurais e pequenos empreendedores na região – a única onde Bolsonaro perdeu as eleições para o candidato do PT, Fernando Haddad. A instituição também participa em financiamentos à infraestrutura, incluindo expansão de aeroportos em capitais nordestinas concedidos à iniciativa privada. No ano passado, o banco desembolsou R$ 42,16 bilhões em mais de 5,3 milhões de operações. Para se ter uma ideia, o valor é 74,4% do total desembolsado em 2019 pelo BNDES, banco de desenvolvimento que opera em todo o Brasil.

VERDADE DE GRAVATÁ – Ao contrário do que foi noticiado, Gravatá não é a segunda cidade do Agreste com maior número de casos do novo coronavírus. De acordo com o prefeito Joaquim Neto (PSDB), várias ações continuam sendo feitas para evitar a propagação da doença. Entre elas, cita a contratação de novos profissionais de saúde, distribuição de kits de higiene, formação de barreiras sanitárias em pontos estratégicos da cidade, bem como EPIs para quem trabalha na contenção do novo coronavírus. Além disso, o tucano ressalta a abertura de 31 novos leitos no Hospital Municipal Doutor Paulo da Veiga Pessoa e a criação de campanha informativa.

Perguntar não ofende: O Brasil ainda comporta um golpe militar em tempos tão consolidados das suas instituições?

Publicado em: 01/06/2020