Fundaj investiga municípios não contaminados pela Covid

Isolamento geográfico e menor densidade populacional são fatores importantes no controle da expansão do novo coronavírus. Após mais de dois meses da pandemia em Pernambuco, pesquisadores do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a Pesquisa Social (Cieg) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) mapearam e realizaram rápida pesquisa junto aos 20 municípios que ainda não apresentam casos confirmados da Covid-19. Como objetivo, eles buscaram identificar as causas desse sucesso no combate à doença no estado.

“Como mostra o Painel Analítico da Fundaj sobre a Covid-19 em Pernambuco, em 26 de maio, a pandemia está presente em 165 dos 185 municípios do estado. A partir da constatação desse rápido avanço, fizemos um mapa e analisamos os municípios que ainda não se contaminaram. Para isso, coletamos os dados junto aos sites das prefeituras desses municípios e nos Informes Epidemiológicos da Secretaria de Saúde do estado, tomando o período de 21 a 23 de maio como base da pesquisa”, afirmou o pesquisador do Cieg da Fundaj e coordenador responsável pelo Painel, Neison Freire.

Analisando inicialmente o mapa desses municípios sem Covid-19, observa-se que a primeira possível causa desse atraso na contaminação pode estar relacionado ao fato de que a maioria não está conectada ou próxima a alguma rodovia federal de grande tráfego. “Existe exceção no caso de Belém do São Francisco (BR-316) e Exu (BR-122). Porém, em ambos, há pouco fluxo de veículos se comparados, por exemplo, a BR-101 ou BR-232”, pontuou Neison.

Ao considerar a população dos municípios sem contaminação, constatou-se também que a maioria é de pequeno porte. Cerca de 80% desses municípios estão abaixo de 20 mil habitantes. Nesse grupo, a cidade de Ingazeira é a menor, com 4.548 habitantes. Enquanto Iati é a maior, com 19.197 habitantes. Logo, a densidade populacional e o distanciamento geográfico são fatores determinantes na evolução da disseminação da pandemia.

A investigação levantou as possíveis causas do atraso na expansão da pandemia, a fim de ajudar na elaboração de estratégias de prevenção em uma provável segunda onda de contaminação. Além do mapeamento, os pesquisadores elaboraram um questionário com quatro perguntas a respeito das possíveis causas desse atraso. Para se ter uma contra-prova, foram investigados dois grupos: os municípios sem casos confirmados (20) e aqueles com casos confirmados (20). Esses últimos foram selecionados a partir dos que apresentaram maior variação percentual nos últimos 15 dias.

Comparando os dois grupos pesquisados, observa-se alguns resultados que diferem a maneira como as cidades reagiram à pandemia. Ao ser pesquisado se no município a prefeitura havia decretado alguma medida de isolamento social ou fechamento do comércio, 16 das 20 cidades sem Covid-19 (80%) responderam que “sim”, permanecendo há aproximadamente 65 dias nessa situação. Já o grupo dos municípios que tiveram maior crescimento na variação percentual de contaminação, 11 de 20 municípios responderam sim (55%), e com média de dias nessa condição inferior ao outro grupo: 52 dias. “Parece pouco, mas se tratando de uma pandemia com alto grau e rapidez de contágio essa diferença pode ser determinante”, destacou Neison.

Analisando o confinamento social, a pesquisa também avaliou, nos dois grupos, se o comércio não essencial estava fechado. No grupo “sem” Covid-19, 11 municípios responderam que “sim”, situação que já dura há aproximadamente 58 dias em média. Já no grupo dos “com” Covid-19, 15 dos 20 municípios estão há aproximadamente 48 dias com o comércio não essencial fechado. Outra questão analisada diz respeito ao fechamento de escolas. No grupo dos “não” contaminados, 17 responderam que as escolas estão fechadas há cerca de 64 dias. Já no dos “contaminados”, 18 responderam que estão com as escolas fechadas desde 18 de março, seguindo o decreto do Governo do Estado. Logo, para ambos os grupos, o fechamento de escolas foi quase que simultâneo e geral.

Por fim, a última questão levantada na pesquisa está associada à instalação de barreiras sanitárias nas entradas das cidades. No grupo dos “não contaminados”, 9 responderam que instalaram barreiras e que, em média, elas existem há cerca de 20 dias, embora exista casos com maior tempo. Um exemplo disso é Angelim (desde 30 de março – 51 dias) e Santa Filomena (desde 01 de abril – 39 dias). Nas cidades com casos confirmados e maior variação percentual de contaminação nos últimos 15 dias, 6 dos 20 municípios pesquisados instalaram barreiras sanitárias. Em média, há apenas 13 dias. Logo, as barreiras sanitárias indicam ser uma provável maneira eficaz de evitar a introdução da pandemia no núcleo urbano desses grupos, embora não seja uma medida tomada universalmente.

Conclui-se, a princípio, que o isolamento geográfico, a menor densidade populacional e algumas medidas referentes à instalação de barreiras sanitárias são fatores importantes no controle da expansão da pandemia. Outro elemento importante é o fato de que os municípios que estão há mais tempo em isolamento social e com atividades não essenciais de comércio fechadas também apresentaram melhores taxas de sucesso no combate à pandemia.

Publicado em: 27/05/2020