À minha Tabira

Há muitas lendas que povoam o imaginário popular em torno do lendário e poético Rio Pajeú, das flores, das violas e dos repentes. Uma delas, a de que uma viola do período da colonização portuguesa foi enterrada no seu leito seco. Água rima com vida, mas não seria a escassez dela a fonte permanente de inspiração dos seus poetas?

O tempo foi se encarregando de confirmar que essa dúvida nunca existiu. Se um dia a viola foi de fato encravada no Pajeú, certamente terá sido em minha Tabira, que festeja hoje 71 anos do seu grito de independência de Afogados da Ingazeira, a quem teve seu ventre gerado como distrito. Sou cidadão de lá, tenho razão para cantar, orgulho de trovejar, inspiração para escrever.

Tem uma uma música de Petrúcio Amorim na qual diz que foi criado entre o velame e a macambira, dedilhando a viola, comendo tareco e mariola. Fui criado entre o mandacaru e o marmeleiro, plantas que unem Afogados da Ingazeira e Tabira num território universal da poesia  e do amor. 

A primeira me pariu, a segunda me adotou. Mas não sei das duas a mais amada e apaixonante, porque são irmanadas pelo toque da viola em cima de pedras, alicerce sólido de sua fortaleza. Minha infância e adolescência se deram numa conexão permanente entre Afogados e Tabira, como um rio de correntes que só puxam para um lado, o lado que não  afoga, de águas remadas num cordel declaratório e confidente do amor.

Não fiquem São José do Egito e Itapetim enciumadas, mas se Afogados da Ingazeira é a capital da nação cuja bandeira por muito tempo foi da cor do algodão, o ouro branco do Sertão, como cantou Luiz Gonzaga, Tabira é o ventre gerador da poesia. Gerou e projetou ao mundo o papa Dedé Monteiro, dono dos versos que tornam sua poesia universal. 

Tabira é tão poética que elegeu um prefeito que dedilha a viola e dela verte um coração movido a repentes, trocadilhos e canções que transformam fel em mel, pranto em riso, desamor em amor ardente. Um monstro sagrado da poesia, como assim se refere a Sebastião Dias o cantor Fagner, que adotou Canção da Floresta, o hino nacional em defesa do verde e da natureza. 

Regue o chão, faça um pomar, ouça a voz do passarinho, a floresta quer chorar, alerta o poeta-prefeito em seu belo grito de advertência à humanidade que destrói nossas matas por absoluta ganância e má-fé. 

Sebastião se fez gente na vida e da prosa seu negócio ouvindo os irmãos Batista – Lourival, Dimas e Otacílio. Também Manoel Filó, Cancão e fez dobradinha com João Paraibano e Valdir Teles. Mas não dá para homenagear Tabira sem recorrer aos versos de Dedé Monteiro, Patrimônio Vivo de Pernambuco. 

Quem me dera, Tabira, se eu pudesse/Te dizer num poema que eu fizesse/A metade de tudo que acontece/Nas profundas cavernas do meu ser.

Se a mim fosse dado esse direito/Eu faria um poema sem defeito/Pra depois a teu povo oferecer/Mas agora, Tabira, me convenço/
Que não trago comigo dote imenso/De dizer tudo aquilo quanto penso/Que a boca peleja, mas não diz.

Mesmo assim eu te canto em baixo nível/Pois te quero de um modo tão incrível/Que se a felicidade for possível/Só por ser filho teu já sou feliz!

Em seu aniversário, Tabira deve ganhar hoje versos e poemas de amor dos seus vates e repentistas. Uma cidade não é medida pelo seu comprimento e largura, mas pela amplitude de sua visão de sua gente, pelo alto de seus sonhos. Não é uma pandemia do coronavírus que vai nos roubar também o direito de sonhar.

Agustina Bessa, escritora portuguesa, disse que as cidades não são pátrias. É na província, segundo nos ensinou, que se encontra o carácter e a mística duma nação, e os grandes escritores deixam-se amarrar ao espírito das terras nulas e sensatas a que extraem um brilho que a pedra polida da capital não tem.

Viva Tabira!

Publicado em: 27/05/2020