Casamentos virtuais viram moda em Pernambuco

Épcoa 

"Denise Coutinho Siqueira Guimarães, é de livre e espontânea vontade que deseja se casar com Marcelo Siqueira de Araújo?". A pergunta repetida ao noivo durante a celebração de um casamento em Recife (PE) seria apenas mais uma de praxe do ritual, não fosse por um motivo: o juiz a fez por chamada de vídeo pelo WhatsApp.

Em meio às restrições por conta do coronavírus, essa foi a solução encontrada por magistrados de Pernambuco para unirem casais que já haviam programado a solenidade. Os casamentos virtuais começaram quando o Tribunal de Justiça do Estado suspendeu, em 16 de março, audiências e sessões para reduzir o fluxo de pessoas. No dia seguinte, houve a primeira celebração online.

Os funcionários públicos Denise Guimarães, 37, e Marcelo Siqueira, 40, se programaram para casar oficialmente no dia 18. Na véspera, receberam uma ligação repentina para que fossem o mais breve possível ao cartório. A celebração seria imediata. "Estávamos na rua. Eu, de blusa, short, sandália havaiana e meu marido, de bermuda. Só tínhamos dobrado a esquina da casa do meu cunhado, quando ele me ligou, e saímos correndo. Casamos com roupa de casa", contou Guimarães.

Os casamentos na capital costumam ocorrer às quartas-feiras com média de 40 casais a cada semana. Dessa vez, os noivos imaginavam uma celebração privada, apenas com juiz e testemunhas presentes. "Quando chegamos lá, o oficial disse que ia ser por videochamada. A gente ficou bem surpreso", afirmou Guimarães. O alívio, no entanto, só veio após a entrega da documentação. "Só acreditamos que realmente tinha validade quando o oficial entregou nossa certidão", disse.

A solenidade online dura entre um a dois minutos. Noivos e testemunhas se reúnem no cartório para fazerem uma chamada de vídeo com o magistrado. Já há planos para que os matrimônios ocorram por videoconferência, com todos de suas casas. Responsável pela iniciativa em Recife, o juiz Clicério Bezerra, da 1ª Vara de Família e Registro Civil, explicou que a cerimônia virtual é muito mais simples e rápida, além de preservar os participantes em tempos de isolamento social.

"A diferença básica é que não falo tanto com no presencial, no qual aproveito que é um momento muito importante da vida dos casais, para falar algumas coisas sobre os deveres do casamento, sobre o casamento civil e a diferença do casamento religioso", disse Bezerra. "Infelizmente, no casamento virtual, não. Me atenho somente a saber se eles estão se casando por livre e espontânea vontade", concluiu.

Bezerra já conduziu oito casamentos no formato alternativo. As exigências são as mesmas do matrimônio presencial, bastando apenas o processo de habilitação e apresentação dos documentos requisitados por lei. Não são necessárias justificativas especiais até o momento, o que pode mudar caso o número de pedidos dispare.

"Se a demanda aumentar e não conseguirmos fazer dessa outra forma, teremos que fazer a triagem para ver quem tem uma justificativa plausível para casar de imediato", disse o juiz, que foi convencido a realizar as cerimônias após contato da irmã de Guimarães, funcionária do fórum na capital.

A iniciativa se ampliou a outras localidades. Na comarca de Petrolina, ao menos quatro casamentos virtuais foram realizados nas últimas duas semanas de março. 

Se o sonho do casamento não precisou ser adiado, as comemorações e a lua de mel tiveram de ser reagendadas. Pelo menos no caso de Guimarães e Siqueira. O jantar pós-cerimônia para 70 convidados foi cancelado. A festa ocorreria no salão do prédio onde a irmã da noiva mora, mas o local foi fechado pelo síndico. A viagem para Natal (RN) no último dia 27 também teve de ser reprogramada.

"Estamos em lua de mel de quarentena em Garanhães (cidade onde o casal vai morar). Conseguimos cancelar tudo o que podíamos, menos bolo, doces, flores. Parte do buffet nós pegamos e alguns serviços ficaram como crédito de um ano", contou Guimarães.

Publicado em: 04/04/2020