Tributo ao que mais importa

Por Alessandra Cavalcanti*

Só porque estou pilhada (ontem, eu estava também), por não ter conseguido dormir em minuto algum da noite passada, algo em mim acordou. Num estalo! Num rompante! Num lampejo! De repente! Epifania? Sabe como é? Num 31 de março atípico, às 7h15 da manhã, almoço já pronto, o mundo dormindo, algo vem e... pá! Faz um barulho danado! Um pouco de inspiração escapa pelas ranhuras da quarentena.

Do vírus, à cura. Será? Já tinha até comentado, em algum rabisco passado, que a luz costuma escapulir justamente pelas brechas do que quebrou. Será? Tomara, meu Deus, tomara! Pra encurtar a conversa, aqui estou. E mesmo sendo incapaz de reunir cada caco que a vida cuidou de espalhar, percebo que essa mesma vida se encarrega de nos dar a liga. A vida ou o tempo, não sei bem.

Sei que, parte do que em mim, por descuido ou displicência, perdeu-se, hoje foi recuperada, reinventada, ressignificada. Senti alegria. Pensei em comemorar. Que tal pintar os cabelos, unificar o castanho escuro da raiz? Pensei em ajustar a sobrancelha, num momento de intimidade total, minha pinça e eu! Ou, quem sabe, arrumar as unhas. Dar um up na vaidade, sabe? Não! Melhor não. Vamos deixar assim, por favor. Hoje é dia de, justamente, permitir que tudo fique como está; que tudo seja como é.

É tempo de baixar o facho, de descansar mais confortavelmente dentro da camisola que mais gosto: uma acinzentada e quase velhinha, de algodão, ilustrada com uma xícara enorme na frente, presente da minha melhor amiga para me lembrar que só depois do café é que funciono. Alguém falou em café? Pois é. É tempo de saboreá-lo vagarosamente, mesmo que, pra isso, ele chegue a esfriar. É época de entender a natureza das coisas. De manter a cara lavada e a alma voltada pro Alto.

Tempo de matar os vícios, aguçar os gostos, ressignificar segundos, minutos...olhar para dentro. Estacionamos na estação que indica parada obrigatória para valorizar mais, amar mais, adorar mais, sentir mais. A vida clama para pausarmos certezas, dar um tempo no que julgamos correto, naquilo que condenamos.

Nunca um vírus veio tão certeiro e com tamanha missão: mostrar o nosso real tamanho e o quanto precisamos de humanidade para crescer e resistir.  

*Jornalista

Publicado em: 31/03/2020