A Desordem Programada II

Por Cássio Rizzonuto

O maior problema brasileiro é a falta de credibilidade de seus homens públicos. O que dizem na parte da manhã pode ser dito de forma oposta no final do dia. Não há coerência. No Brasil, alcançar cargo eletivo é ser premiado com prêmio acumulado da melhor loteria. A questão é que a internet e redes sociais atrapalham muito essa gente.

A cada declaração contraditória, dá-se início à divulgação de enxurrada de falas passadas do envolvido, expondo-o em infindáveis máscaras. Cada qual mais solene e menos convincente. Como as que mostram o governador Doria (SP), jurando que jamais se uniria ao “extremista” Bolsonaro, alguns meses antes da eleição presidencial (2018).

Quando as eleições se aproximavam, trazendo possibilidade de vitória do “repudiado”, o alpinista eleitoreiro, que deixou a Prefeitura da Capital e se lançou ao governo, criou slogan (BolsoDoria), abraçou-o em praça pública e se tornou seu maior defensor. No momento ele o tem, mais uma vez, como “inimigo”.

João Agripino de Costa Doria Jr. é exemplo de camaleão bem-sucedido: apresentando-se como “fato novo” é filho de ex-deputado federal cassado (1964), foi secretário de Turismo (1982/84), do então prefeito de São Paulo, Mário Covas, e presidente da Embratur (1985/87), durante o corrupto governo José Sarney (1985/90).

Seu sonho é a Presidência da República, embora incapaz de apresentar trabalho de qualidade ou resultado positivo alcançado em qualquer dos cargos públicos anteriormente ocupados. É o típico “líder” nacional: vazio e presunçosamente inflado.

Políticos como tal trabalham para a derrocada de qualquer administração federal, pois sabem que o sucesso de um presidente irá causar enorme entrave às suas ambições de nível pessoal. Basta lembrar o mal que Rodrigo Maia e demais congressistas vêm fazendo às iniciativas do governo federal. A não ser que a administração seja corrupta.

O atual presidente e seus ministros têm enfrentado, além de boicote sistemático às suas ações, a chamada grande imprensa, ou “mídia extrema”. Os recursos financeiros que alimentavam esses impérios foram cortados. A Rede Globo e a Rede Bandeirante estão, agora, fazendo parceria com a China, pois não têm compromisso com o país.

O presidente dos EUA, Donald Trump, observou que se forem tomadas medidas objetivando o percentual de apenas 1,5% a ser possivelmente atingido pelo coronavírus, levar-se-á o caos para os 88,5% restantes. Foi isso que Bolsonaro quis dizer em seu pronunciamento (antes mesmo de Trump), e é isso o que já está acontecendo.

Os “representantes” políticos não viram ainda as multidões de desempregados, moradores de ruas, pedintes e mergulhados na economia informal que começaram a saquear mercadinhos, fazer arrastões e cobrar ação por parte das autoridades. O quadro que se desenha é aterrador e é preciso que alguém em sã consciência se posicione.

Nesta semana, o governador Ronaldo Caiado (GO), quase foi agredido ao chegar à sede do governo estadual. Desmontar a economia e matar o povo de fome não vai resolver o dilema: vai causar revolução. Ou se abre a tampa, ou a panela irá explodir.

O ex-presidente FHC cobrou liderança e “decoro”, do presidente Jair Bolsonaro, esquecido que, em seu governo, colocou o notório Renan Calheiros como ministro da Justiça. O melhor que esses “líderes” podem fazer é calar a boca e deixar de atrapalhar.

O clima político está em ebulição. É provável que falte pouco para estourar. Apesar de panelaços fajutos, exibidos pela Rede Globo, os revoltados já formaram opinião a respeito de quem a fatura deve ser cobrada. O coronavírus está expondo a face horrenda de mais de 500 anos de roubalheira, autoritarismo e políticas desastradas.

Publicado em: 26/03/2020