Minha mãe Dó faz festa no céu há 7 anos

O tempo é o senhor da razão, mas também é avassalador: voa como um jato. O que nos apresenta como algo tão próximo da memória muitas vezes leva anos de distância e uma eternidade para se compreender. Ontem, de tanta dor, por dentro e por fora, mexendo diretamente nas veias que irrigam a alma e assopram o coração de filho saudoso, não escrevi uma linha sequer sobre o dia em que Deus jogou o seu anzol celestial e resgatou para a eternidade a minha querida e inesquecível mãe Dó, a flor Margarida Martins, aos 86 anos.

Margarida é uma flor que vem do latim margarita, que significa pérola. Mamãe era uma pérola de ouro o mais brilhante, caro e raro do mundo. Seu brilho estava no olhar sedutor, aquele olhar de mãe ternura, associado a amor, muito amor. Amou meu pai, hoje carregando a cruz da sua morte próximo a completar 98 anos, a vida inteira.

A conheceu menina verde na vida, sonhadora. No Sertão, embora se carregue mais espinhos do que flores margaridas, se sonha muito, logo cedo na vida, vai desde quando se entende de gente aos anos dourados e até ao mais tênue da vida, o da velhice. 

Mamãe deu a vida ao varão da família e não pediu nada em troca. Era o grande amor da sua vida. Dizem que amor não se explica. Ama-se porque se ama. Nasce aleatório, floresce na natureza bruta, se espalha deixando marcas que o tempo não é capaz de apagar nunca.

Mamãe dizia que não queria morrer antes do meu pai, porque sabia que teria mais coração e couro de elefante para suportar do que ele. Verdade verdadeira. Papai carrega a sua partida como se fosse um túmulo de aço, longe do alcance das suas forças que a vida lhe deu.

Li que, antigamente, a margarida era considerada a flor das donzelas, simbolizando a juventude, a simplicidade e a inocência. E que é uma flor que combina muito bem com outras, e por isso é comum vê-la juntamente com outras em arranjos florais, transmitindo uma sensação de jovialidade.

Revela ainda que a margarida faz parte da infância de muitas pessoas, já que a brincadeira "bem-me-quer, mal-me-quer" é feita com esta flor.

Mamãe vivia brincando na vida e seduzindo com suas brincadeiras. De personalidade forte, herdada do meu avô Severo Martins, deportado pela seca da paraibana Monteiro, também não dava mole. Certa vez, deu um carão num eleitor do meu pai que a pediu para lavar seus pés quando aguava os jardins da nossa casa.

O voto foi perdido, mas ficou a marca da sua personalidade. Mamãe era gentil, mas só se curvava para agradecer. Dizia o que vinha na cabeça sem medo e sem ódio, mote da campanha do saudoso senador Marcos Freire. Quando soube do meu namoro com Aline Mariano, mãe dos meus filhos Magno Filho e João Pedro, olhou pra mim e disse: "Você não tem vergonha na cara não, rapaz, em se agarrar com uma Mariano?"

Por que a raiva? Os Mariano, liderados pelo saudoso ex-deputado Antônio Mariano, pai de Aline, eram adversários políticos da nossa família. Papai foi vice-prefeito e vereador por quatro legislaturas sem bater continência aos Mariano.

Isso, para ela, era um sacrilégio, um pecado imperdoável. Com o tempo, no entanto, o carisma político e a sedução que esbanja como ser humano, Aline conquistou o coração dela, que mais tarde veio até a se engajar nas suas campanhas eleitorais. E um dia vi mamãe sair das urnas dando um voto num Mariano.

São tantas histórias encantadoras da flor Margarida que dariam um livro. Mas seu grande legado é o amor, a paixão pela vida, que viveu intensamente cada minuto. Muitas emoções compartilhadas com uma taça de um bom vinho em mãos. Dizia: quer viver, vinho!

Amor de mãe não obedece lei ou piedade. É o combustível que move o filho a fazer o impossível. Amor de mãe vence preconceitos, supera os limites, enfrenta todos os desafios e te ajuda a vencer. Amor de mãe, só Deus para entender. Simplesmente amor!

Publicado em: 28/02/2020