Coluna da quinta-feira

Na prática, o articulador será FBC

Se já era ruim, com a escolha de um general da reserva, Walter Braga, para conduzir as negociações com o Congresso, a articulação política do Governo Bolsonaro tende a piorar. Ministro fardado pode até entender de gestão, mas passa longe do seu domínio a arte da política, especialmente a de engolir sapos.

Onyx Lorenzoni, agora ex-ministro da Casa Civil e responsável pela pasta de Cidades no futuro, num remanejamento que expurgou Osmar Terra, não era uma Brastemp no jogo político com o Congresso. Eram corriqueiras as reclamações do seu mau humor, da sua apatia e até indisposição para azeitar a relação do Executivo com o Legislativo.

Chegava a tratar aliados como se fossem adversários. É remanescente de uma safra de políticos que não têm pavio, ou seja, pior do que aqueles que têm o pavio curto. Por isso mesmo, chegou a ser odiado por deputados do baixo clero, que saiam do seu gabinete sem um mínimo de encaminhamento atendido plenamente ou até mesmo parcialmente.

Com saudade da caserna, ambiente que faz a sua felicidade, Bolsonaro deletou todos os ministros civis dos gabinetes com assento no Palácio do Planalto. Deve ter conquistado a felicidade ao olhar ao seu redor, a partir de agora, em momentos difíceis para decidir, e só encontrar auxiliares exibindo farda.

Como o jogo para ser vencido no Governo frente ao Congresso é político, Bolsonaro tende a ter, na prática, um ministro informal da articulação política andando entre o Salão Verde da Câmara e o Azul do Senado, o senador pernambucano Fernando Bezerra Coelho (MDB), já consagrado líder do Governo no Senado.

Ninguém entende mais do que FBC desse xadrez maquiavélico da política e do poder e é a ele que o presidente tenderá a recorrer muito mais, a partir de agora, para destravar os penduricalhos do seu Governo em tramitação no Congresso, para não continuar refém dos presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre.

Indefinição na SUDENE – O empresário caruaruense Douglas Cintra regressou, ontem, de Brasília, depois de dois dias em articulações política, sem saber de fato se vai mesmo continuar à frente da Sudene. Os indicativos colaboram muito mais no campo otimista, mas soa estranho o silêncio do Governo, especialmente do novo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, a quem a instituição está vinculada. O que se sabe e continua valendo ainda é que setores do PSDB paraibano querem abocanhar a Sudene do controle de Pernambuco.

Nenhum sinal – Na última terça-feira, tão logo foi empossado no Ministério do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho foi paparicado por empresários da construção civil num jantar em Brasília, recheado de parlamentares do Nordeste. Em nenhum momento, entretanto, tratou de Sudene nem deu sinais de que está decidido a dar o desfecho sobre a situação desconfortável vivida por Douglas Cintra. Marinho é do Rio Grande do Norte e pretende fazer o primeiro encontro com governadores nordestinos em Natal, capital potiguar.

Audiência – Inicialmente padrinho da indicação de Douglas Cintra para a Sudene, o deputado Fernando Rodolfo (PL) esteve no jantar em homenagem ao novo ministro do Desenvolvimento Regional e a ele pediu audiência para tratar de Sudene, dentre outros assuntos. Ele não teve o poder de fogo de bancar Cintra sozinho. Não fossem a pressão e as articulações do líder do Governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, a nomeação de Cintra não teria sido feita pelo ex-ministro Gustavo Canuto.

Guerra florestana – Rival político em Floresta do novo superintendente do Incra, Kaio Maniçoba, o secretário de Turismo, Rodrigo Novaes, está apostando que o governador Paulo Câmara não subirá mais no palanque da pré-candidata do PSB no município, a ex-prefeita Rorró Maniçoba, depois do alinhamento do seu grupo ao Governo Bolsonaro. Nas eleições municipais, segundo ele deixou vazar, aliados do presidente da República em Pernambuco serão tratados como inimigos na forma da lei.

CURTAS

NEPOTISMO EM GOIANA – Homem forte na gestão do prefeito de Goiana, Osvaldo Rabelo Filho (MDB), o secretário de Governo, Eduardo Batista, é adepto da política paternalista e de apadrinhamento familiar sob o olhar complacente do gestor. Dentre todos os auxiliares é o que mais conseguiu fazer a cabeça de Osvaldinho, como o prefeito é mais conhecido, de que a prática do nepotismo não é má-conselheira. Nomeou a filha Rebeca secretária de Saúde, o cunhado Daniel Alves, na Secretaria de Serviços Públicos, e o genro na empresa Litucera, que cuida da limpeza urbana.

RIFADO – Ainda sobre Goiana, o vice-prefeito Eduardo Honório Carneiro (MDB) não tem mais unhas para roer depois de ser informado que o prefeito Osvaldinho, que está doente e afastado das funções, já teria escolhido o jornalista Fernando Veloso para ser o candidato do grupo à sua sucessão. De fato, Veloso, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco, ex-colunista político do DP e da Folha, já está de malas e cuias de volta à terra natal, tendo deixado para trás o sonho de virar próspero produtor de uva e manga em terras do São Francisco, em Juazeiro (BA).

MORO ATENDE – Em despacho, ontem, para a delegacia regional de Pernambuco, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, determinou urgência para atender ao pedido do presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Antônio Campos, de proteção de vida não apenas para ele, mas também para a família. Tonca requereu o direito de ser protegido alegando que passou a receber mensagens estranhas após prestar depoimento ao Ministério Público Federal sobre irregularidades envolvendo gestões do PSB em Pernambuco.

Perguntar não ofende: Quem está por trás, afinal, da puxada de tapete que querem dar em Douglas Cintra na Sudene?

Publicado em: 13/02/2020