Coluna do sabadão

Eleição vira confronto de delegadas

A sucessão do prefeito Geraldo Júlio no Recife caminha para virar, literalmente, caso de polícia. Saem de cena os políticos tradicionais dando lugar aos xerifes que, antigamente, só se viam em filmes de faroeste e que faziam, diga-se de passagem, muito sucesso, com um detalhe: no caso do Recife, são xerifas, vestem saias.

A primeira em cena é a postulante Patrícia Domingos, do Podemos, que vem de uma história de combate aos políticos corruptos, tendo colocado no xadrez 49 gestores, entre políticos e técnicos. Pelo fato de ter saído como vítima com o fechamento abrupto da delegacia que comandada, justamente na hora em que pegaria medalhões, Patrícia se colocou na vitrine do noticiário político.

Pode ser a grande surpresa da eleição por ser mulher, jovem, bonita, carismática e um discurso fluente, além de corajosa. Patrícia é a candidata também do discurso antipolítico, combatente da velha política que tanto Bolsonaro falou na campanha, mas que na prática é prática pregada em deserto, sem ressonância.

A confirmação de Patrícia pelo Podemos, legenda pela qual chegou passando por cima do presidente estadual, Ricardo Teobaldo, costurando em Brasília por intermédio da presidente nacional, Renata Abreu, deixou o PSB em polvorosa. Tanto que a arma que estão tentando rechear de munição é fazer a cabeça da delegada Gleide Ângelo, fenômeno eleitoral em 2018, na composição da chapa como vice de João.

A estratégia está corretíssima, só tem um problemão: Gleide também é do PSB, partido que encabeça a aliança governista com João Campos. Chapa puro sangue numa frente partidária agigantada como a do PSB vira um inferno para ser administrada. Faltando ainda cinco meses para as convenções, partidos como o MDB já assumem a condição de detentores da vaga de vice. Imagine se o PT resolver queimar Marília e exigir a vice?

Levantando a ficha – A delegada Gleide Ângelo foi generosa com o PSB, antes de entrar na política, em casos policiais até agora não esclarecidos de políticos e gestores com DNA socialista e isso vai vir à tona ao longo da campanha. Há informações também que seu desligamento da Caixa Econômica Federal tem boi na linha. Ambos os casos já estão sendo levantados pela oposição. A delegada socialista é um daqueles fenômenos eleitorais que acontecem a cada mil anos e ninguém sabe explicar.

Só quer Recife – Ainda em relação à delegada socialista, que encheu um saco de 420 mil votos para ter assento à Assembleia Legislativa nas eleições passadas, o que diz a rádio-corredor do Palácio Capibaribe, sede da Prefeitura do Recife, é que já teria dado murro na mesa quando colocaram seu nome para disputar a Prefeitura de Jaboatão com a única intenção de derrotar o grupo Ferreira. “Por que não o Recife?” Assim, teria regido diante de interlocutores que ficaram mudos, engasgados, sem saber o que dizer.

Acordo tácito – Lançado candidato a prefeito do Recife pelo PDT durante a passagem na capital do presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, o deputado Túlio Gadelha tem um acordo fechado com Marília Arraes: se esta se viabilizar candidata pelo PT, terá o seu apoio, podendo até ser o vice. Do contrário, a petista levaria seu grupo dissidente à manutenção da aliança com o PSB para reforçar o palanque de Gadelha. Fala-se ainda que eleita Marília prefeita com Gadelha na vice, dois anos depois a petista seria candidata natural ao Palácio das Princesas, passando a caneta azul do Recife para o namorado de Fátima Bernardes.

Wolney líder – No café da manhã que o governador Paulo Câmara ofereceu, ontem, ao presidente do PDT, Carlos Lupi, foi informado que o deputado Wolney Queiroz assume a liderança do partido na Câmara. O processo está bem adiantado. O PDT tem uma bancada de 30 parlamentares na Casa e o atual líder André Figueiredo (CE) quer ser sucedido por Wolney. No café, em nenhum momento, Lupi disse que a candidatura de Túlio Gadelha no Recife seria irreversível.

CURTAS

CANO DE FERRO – Três procuradores federais tomaram o depoimento do presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Antônio Campos, ontem, no Ministério Público Federal, durante três horas num processo que corre em segredo de justiça. Quem chegou a ver, a exemplo do advogado criminalista Weryd Simões, diz que foi nitroglicerina pura. “Não ficará pedra sobre pedra”, escreveu nas redes sociais. O teor do depoimento, entretanto, é um grande mistério, mas Tonca, como é mais conhecido, teria recorrido à expressão: “Dei de cano de ferro”.

VÁ ENTENDER! – A delegada Patrícia Domingos diz que, em nenhum momento, sugeriu que o presidente estadual do Podemos, Ricardo Teobaldo, que votou contra o afastamento do deputado Wilson Santiago (PB), envolvido no escândalo que levou o ex-governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, à prisão, seja corrupto. “Afirmei que todo partido tem alguém respondendo a processo, não disse que são culpados e que foram condenados. Não acusei ninguém de corrupção, nem usei essa palavra”, afirmou. Para um partido que aceitou um símbolo da anticorrupção, o voto do presidente estadual salvando um acusado de corrupção é incompreensível.

PALANQUE ÚNICO – Com relação à informação divulgada nesta coluna, sobre a possibilidade de estar em palanque diferente do pai Silvio Costa na eleição do Recife, o deputado Silvio Costa Filho garante que não existe nenhuma possibilidade de estarem em lados opostos. Com relação ao processo eleitoral, o Republicanos, segundo ele, vai iniciar uma discussão interna e definirá, nos próximos meses, qual candidato apoiará. “Nosso apoio será baseado em uma nova agenda programática para a cidade”, afirmou.

Perguntar não ofende: João Campos tem certeza de que o deputado paraibano Wilson Santiago, a quem ajudou a salvar a pele no pedido de afastamento do STF, não é corrupto ou seu voto se encaixou ao corporativismo da Casa?

Publicado em: 07/02/2020