Coluna da segunda-feira

No Ceará, não tem disso não!

O que revi agora na incursão de uma semana ao Ceará lembra muito a famosa canção de Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, que, aliás, também se considerava cearense e que rapidamente chegou aos ouvidos da Nação brasileira, inclusive não nordestinos, que diz assim: “No Ceará, não tem disso não!”

Não tem disso, vale a ressalva, de forçar a barra para colocar gente no Governo só porque é parente ou um joguete da família dominante. Pode ser da família sim, e por que não? Mas desde que se prepare, tenha experiência e depois conquiste os espaços pelo talento, como é o caso, por exemplo, do prefeito de Sobral, Ivo Gomes.

Este primeiro fez mestrado em Direito na Universidade de Harvard, voltou para Sobral no cargo de chefe de gabinete na Prefeitura, depois secretário municipal da Educação para então disputar uma vaga de deputado estadual e em seguida de prefeito de Sobral, sua cidade natal. Alguém pode contestar afirmando que ele é irmão dos ex-governadores Ciro e Cid Gomes, acusados de montar uma oligarquia.

Mas não é bem assim: lá tem que se preparar, começar debaixo e, se tiver de fato mérito e bagagem, pode atingir as alturas até onde suas asas tiverem alcance. A verdade é que a experiência do Ceará é fundamentalmente baseada no mérito, fase que começou com o hoje senador Tasso Jereissati, na época o governador que fez a transição da política do coronelismo, fortemente arraigada em terra de Iracema dos lábios do mel.

Tasso instalou uma gestão empresarial, modernizou o Estado, que só era conhecido pelos seus coronéis do atraso, como César Cals, um dos mais afamados. Abriu espaços para Ciro e tantos outros talentos, como Lúcio Alcântara e Beni Veras. Depois, Ciro iniciou um novo ciclo, tendo seu irmão Cid assumido como principal líder estadual.

O atual governador Camilo Santana foi escolhido em acordo com o PT, sendo um quadro originário do Sertão do Cariri. Camilo teve que trabalhar duro, amargar duas derrotas seguidas para prefeito da sua cidade natal, acumular experiência como superintendente do Ibama, secretário de estado por quatro anos, deputado estadual e só depois governador.

O mesmo acontece na Prefeitura de Fortaleza. O atual prefeito Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra se formou em Medicina pela Universidade Federal do Ceará, fez mestrado e doutorado nos Estados Unidos, eleito em seguida duas vezes deputado estadual e escolhido, por unanimidade presidente da Assembleia Legislativa, para só depois ser eleito e reeleito prefeito da capital cearense.

Trocando em miúdos e versejando no bom dialeto cearense: no Estado, além de mérito, tem que ter capacidade comprovada e liderança política para virar governador ou prefeito da capital. Percebi isso muito claro quando, na entrevista que fiz com o governador, quis forçar a barra para ele revelar, em primeira mão, quem seria o candidato do grupo Ferreira a prefeito de Fortaleza.

Ele deu exatamente a resposta que se adequa ao padrão cearense de se escolher candidatos majoritários: “O projeto não pode ser pessoal, tem que ser do Estado”. Perceberam? Vou repetir tem que ser do Estado, em outras palavras, um projeto coletivo e não pessoal, nada além disso. Muito diferente de Pernambuco, onde as razões familiares, através dos seus próprios membros ou de vassalos subcontratados, estão acima de qualquer outro critério. É o caso de Paulo Câmara, membro da família Campos através de casamento, e ainda mais grave, de João Andrade Lima Campos, filho de Eduardo.

O primeiro foi uma imposição direta de Eduardo, que decidiu colocar alguém sob o seu jugo absoluto, talvez até por não ter qualquer tipo de aptidão para liderar. Agora, a viúva Renata Campos quer impor seu próprio filho, jovenzinho, sem preparo, e com a mais precária experiência de vida em geral e de gestão pública ainda menos.

Verdade que Pernambuco prosperou, e muito, com Eduardo, mas depois dele tem sido uma calamidade, com raras exceções. A atual cena pernambucana é mais que lamentável. Foi uma “herança maldita” de Eduardo, que, involuntariamente, deixou um governador fraco e um prefeito mero reflexo do poder direto da viúva Renata Andrade Lima Campos, a verdadeira chefona de Pernambuco, que dá ordens para empregar seus familiares, de forma absurda.

Essa é uma das razões da marca do atraso pernambucano e da realidade do Ceará, anos à luz na frente, hoje líder nacional em investimentos públicos, acima de Estados poderosos e ricos, como São Paulo e Minas Gerais.

Até quando Pernambuco e Recife vão ficar nessa condenação ao atraso?

Campeão em investimentos – As mudanças no Ceará não se dão apenas na forma política, mas sobretudo em gestão. Na saída do Palácio da Abolição, na última sexta-feira, onde o entrevistei, o governador Camilo Santana (PT) disse que fechou 2019 como o Estado número um em investimento público no País e que caminha para repetir a façanha em 2020. Não se trata de chute, são estudos nacionais da Fundação Getúlio Vargas apontando que o nível de investimento público representou 13,1% das despesas primárias no Ceará. Na prática, foram mais de R$ 1,4 bilhão em relação a 2018.

Bateu mais ricos – Com base em outro dado, o levantamento disponibilizado pela Secretaria do Tesouro Nacional (Sincofi/STN), o Ceará cumpriu todas as metas estabelecidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), com aumento da Receita Corrente Líquida em 7,9%. Em 2018, o Estado também foi o segundo do País em investimentos absolutos, atrás somente de São Paulo. Quatro Estados ainda não apresentaram todos os seus relatórios referentes ao período. Quanto à vice-liderança do Ceará em volume absoluto de investimentos, Santana ressaltou que o Estado ficou atrás somente de São Paulo, “que tem uma economia muito maior do que a nossa”, e também informou que o Ceará, pela primeira vez na história, ultrapassou Estados mais ricos, como Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Outro parâmetro – O que pesou para o Ceará assumir essa liderança? “Eficiência da gestão fiscal do Governo nos últimos anos, com controle e acompanhamento rigoroso de todos os gastos públicos”, diz o governador, para adiantar: “Temos um grupo de secretários responsável por monitorar e acompanhar semanalmente, com muito rigor, os gastos do Estado. Isso nos permitiu ultrapassar o indicador de 2017, chegando a 15,20% da Receita Corrente Líquida estadual. É importante também destacar o resultado em números absolutos, apesar de que nem todos os Estados apresentaram os seus dados, mas o Ceará chegou a mais de R$ 3 bilhões em investimentos no ano de 2019”, explicou.

Saúde e educação – O Ceará continua investindo mais, ano a ano, em Educação e Saúde. Os gastos nas áreas prioritárias atingiram, respectivamente, 27,33% e 15,40% da RCL. O mínimo previsto na Constituição Federal é de 25% para Educação e 12% para a Saúde. “Isso significa que, numa conta rápida, para cada 1% que eu elevo desse gasto obrigatório, são R$ 174 milhões a mais de investimentos em duas áreas importantíssimas para a população cearense. O Estado investiu quase R$ 1 bilhão a mais em Educação e Saúde em 2018, além do que era obrigatório do Estado investir”, afirmou o governador.

CURTAS

OS PILARES – O crescimento da economia cearense, numa média de 2,37% no ano passado, superando a média nacional, se dá, basicamente, a partir de três pilares: investimento público, privado doméstico e capital estrangeiro. No caso do Brasil, que está com desequilíbrio fiscal muito grande, os investimentos públicos estão sendo cortados ou inibidos. Como o Ceará tem um bom equilíbrio fiscal, diferentemente de muitos Estados, esse componente é fundamental para atrair investimentos públicos e privados. Com isso, o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado aparece sempre com uma taxa superior à do PIB nacional.

EXEMPLO DE TERESINA – Não é Fortaleza, Salvador nem tampouco Recife que lidera o maior investimento em saúde pública na Região. É a pequena Teresina, capital do Piauí. Segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina, Teresina também é a terceira nacional nesse ranking, de gasto com a saúde de cada habitante durante todo o ano de 2019. O valor aplicado na capital do Piauí chegou a R$ 590,71 por munícipe, ficando atrás apenas de Campo Grande, líder no ranking com R$ 686,56 em gastos per capita, e São Paulo – que ficou com R$ 656,91. Quando o ranking engloba apenas as capitais da região Nordeste, Teresina lidera no levantamento do CFM. Em segundo aparecem São Luís (R$431,19) e Natal (R$ 362,99). Fortaleza ganha, entretanto, para Recife e Salvador.

MAIORES E MENORES – Entre os mais altos valores per capita investidos em saúde pública estão os das duas menores cidades do País. Com apenas 839 habitantes, Borá (SP) lidera o ranking municipal, tendo aplicado R$ 2.971,92 para cada um dos 812 munícipes. Em segundo lugar, aparece Serra da Saudade (MG), cujas despesas em ações e serviços de saúde alcançaram R$ 2.764,19 por pessoa. Na outra ponta, entre os que tiveram menor desempenho na aplicação de recursos estão três cidades de médio e grande porte, todas situadas no Estado do Pará: Cametá (R$ 67,54), Bragança (R$ 71,21) e Ananindeua (R$ 76,83).

Perguntar não ofende: Quem será, afinal, o candidato de Bolsonaro a prefeito do Recife?

Publicado em: 03/02/2020