Em Fortaleza, secretários usam o seu carro particular

Na chegada a Fortaleza, logo cedo, fui conhecer um dos programas mais revolucionários em desburocratizar a vida do investidor, desde aquele que se dispõe a abrir um simples negócio, como uma pequena fábrica de pipoca, ao mais elevado em volume de recursos, geração de renda e emprego, como o empresário João Carlos Paes Mendonça, que instalou dois shoppings na cidade: o Fortaleza Online.

No final da edição de hoje, contarei tudo sobre o programa em detalhe. O que me despertou atenção nessa postagem, porém, é que, ao longo de todo o dia, visitando áreas de atração de investimentos e catando os dados necessários para o texto, fui ciceroneado pela secretária de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza, Águeda Muniz, dirigindo o seu próprio carro particular.

Isso mesmo! Aqui, o prefeito Roberto Cláudio (PDT), médico de carreira, mas gestor de mão cheia revelado pela família Gomes, do ex-ministro Ciro Gomes, não permite que carros oficiais sejam usados por secretários, nem tampouco por dirigentes de estatais ou ocupantes de cargos do segundo escalão.

Na capital cearense, quem quiser emprestar seu talento à vida pública como gestor tem que dirigir o seu próprio carro, de casa para o trabalho ou em serviços extras. Há muito, acabou privilégios e abusos, como o de usar veículo da frota pública para passear, levar filhos na escola ou até fazer compras, o que acontece em vários rincões deste País de enormes desigualdades sociais.

Desde que acabou com a mordomia, em 2017, o prefeito estabeleceu uma cota para despesas com combustível mensal, algo em torno de R$ 1,2 mil, mas destinada apenas ao Secretariado, medida que reduziu drasticamente as despesas com a manutenção da frota municipal. “Quem não quiser dirigir, pode usar a cota para pagar motorista”, diz Águeda Muniz, uma das mais eficientes auxiliares de Roberto Cláudio.

Águeda trabalha mais de 14 horas por dia para facilitar a vida do pequeno investidor que queira abrir negócios na cidade. Sob o seu comando, na atual gestão da capital cearense é possível sair dos órgãos públicos competentes com a licença e o alvará de funcionamento em 30 minutos. Mas sempre no volante, enfrentando trânsito com paciência de Jó. O decreto do prefeito, segundo ela, se deu no auge da crise de 2017, para sanar despesas.

Pelo mesmo decreto, o prefeito promoveu um amplo corte em servidores terceirizados, comissionados e até em passagens áreas, além de cortar apoios publicitários para eventos. Na própria pasta de Águeda, os cortes de pessoal chegaram ao patamar de 40%. “Isso, entretanto, não afetou na qualidade dos serviços que a Prefeitura presta à população”, observa a secretária. Mais tarde, conto tudo sobre o trabalho que ela coordena e que levou Fortaleza a ganhar, recentemente, um prêmio nacional.

Publicado em: 27/01/2020