O poderoso jornalista que malufou o Correio

Morreu, ontem, em Brasília, o jornalista Ronaldo Junqueira, meu ex-chefe no Correio Braziliense, jornal que dirigiu por muitos anos, no tempo da pílula dourada do poder da notícia em papel. Junqueira soube usar a carta branca que os caciques dos Diários Associados lhe conferiram, transformando-se no mais poderoso jornalista de Brasília, entre meados dos anos 1980 até a década passada.

Ele dizia que fez o curso de Jornalismo em cinco minutos, numa visita à sucursal brasiliense do extinto Jornal Última Hora, na década de 1970.

“Fui lá vender livros e acabaram me dando uma pauta sobre a visita do casal de príncipes japoneses a Brasília”, contou ele numa entrevista ao site Extra Pauta.

Depois disso, Junqueira passou por redações de várias sucursais do DF, entre elas a do Jornal do Brasil. Mas a história profissional de Ronaldo Martins Junqueira atingiu o auge profissional no período em que dirigiu a redação do Correio Braziliense, época em que o jornalismo impresso tinha mais influência, por não concorrer com a mídia eletrônica dos tempos atuais.

Ele dirigiu o maior e mais influente jornal da Capital Federal em momentos como a eleição da primeira bancada federal do DF, a derrota das Diretas Já no Congresso e a eleição indireta que marcou o fim da era dos presidentes militares com a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Nesses dois episódios, inclusive, à frente de uma empresa de consultoria política, prestou serviços ao candidato Paulo Maluf. Outro político por quem Junqueira tinha admiração era o ex-governador Joaquim Roriz. 

Quando Roriz foi eleito, em 1991, o jornalista já estava em voo empresarial solo, lançando o semanário Jornal da Comunidade. Em seguida, criou o tabloide diário Coletivo, que também já parou de circular.

Junqueira foi casado três vezes, mas morreu sozinho. No período em que estive no Correio Braziliense nunca me saem da memória suas orientações de pauta para encher a bola de Paulo Maluf, candidato ao Planalto na eleição indireta do colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves.

No meu livro Histórias de Repórter, que traz bastidores que vivi no plano nacional e na aldeia, conto o episódio em que, no auge da disputa no colégio eleitoral, Junqueira reuniu os editores do Correio para mandar um curto recado: o jornal malufou.

Malufar era conjugar corrupção e picaretagem. A cada adesão que Paulo Maluf roubava entre os pares de Tancredo, a manchete "Fulano malufou". O malufismo do Correio Braziliense foi escancarado, levando o jornal mais poderoso da corte ao descrédito.

Publicado em: 10/12/2019