Nunca é tarde para homenagens

Devido a correria em Brasília, ontem, Dia da Consciência Negra, não tive tempo de homenagear todas as tribos e cores deste Brasil de múltiplas raças. Faço agora reproduzindo a bela poesia de Mariana Teles, do meu Pajeú das flores. É de arrepiar! Confira

20 de Novembro – Dia da Consciência Negra

Qual é tua cor, Brasil?

Para além das etnias...

Tu és o verde das matas

Ou o azul das marés frias!

Todo teu sangue é vermelho

Da terra quente, o espelho,

Refletindo os mais fiéis

Filhos cansados que vão

Vagando na imensidão

Sem ter calçado nos pés.

 

Tu és Brasil, por acaso,

A cor do teu carnaval?

Ou a ressaca de usina,

Cobrindo o canavial!

Distante dos ameríndios,

Negas a cor dos teus índios

Porque, Brasil da trapaça?

Se a nossa ancestralidade

Nasceu da homogeneidade

Que não discrimina raça.

 

Cadê, Brasil do império?

Tua consciência preta?

Se esconde num ministério

Que não visita a sarjeta!

Ah Brasil, que consciência...

Se os teus filhos sem clemência

Negam do homem o valor!

Brasil de sonhos mulatos

Porque teus filhos ingratos?

Nunca mostram a tua cor.

 

Brasil nos teus palacetes,

Quantas Dandaras sem voz?

Quantos Zumbis dos Palmares?

Inda vão morrer por nós?

Porque, Brasil, só um dia?

Se de fato a alforria,

Nunca chegou de verdade?

Negra é nossa consciência,

Tua verdadeira essência

É negra na identidade!

 

Tu és Brasil, brasileiro!

Mas também és africano,

O teu navio negreiro

Nunca sepultou seu plano!

O negro das nossas falas

Traz silêncio das senzalas

Traz dor, tormento e tortura

Negas até tua fé...

Pois até teu candomblé

Vive à margem da cultura.

 

Mas Brasil, tu não és feito

Do branco de Portugal!

De branco? O teu preconceito

Insistindo em ser fatal.

Mas tu és negro de origem,

Sem esconder a vertigem

Dos gritos da palmatória

Onde tudo cheira a sangue

Hoje a senzala é o mangue

Continuando a história!

 

Continuamos Brasil,

Vendendo homens por cor,

A lei áurea do fuzil

Nas favelas tem valor!

Homens brancos prendem pretos

Tantas chacinas nos guetos,

Branco mata e preto morre!

Por que Brasil da injustiça,

A nossa voz de justiça

Nos teus ouvidos não corre!

 

Brasil, as mulheres negras

São as mais violentadas

Por um sistema falido

De práticas ultrapassadas

Por um racismo velado

Constantemente calado,

Elas sofrem todo dia.

Tua escola não ensina,

Que não é na melanina

Que nasce a cidadania!

 

O teu parlamento branco

É Casa Grande e altar

Nós estamos na senzala

Sem ter direito a falar!

Tuas cadeias são feitas

Para negros sem receitas

Que não pagam defensor...

Presídio, ficou pra pobre!

Porque o crime não cobre

Seus filhos com a tua cor!

 

Esse teu branco forçado,

Vai até no colarinho,

De ministro e magistrado!

Sem ter negro no caminho,

Mas o teu código penal,

Parece que é usual,

Onde a justiça não cobre

Só é branco o colarinho,

Mas o restante todinho

Ficou para preto e pobre!

 

Por isso, Brasil, levantas!

Ergue a força do teu grito

Pega teus negros, reages!

Tu não tens herói, nem mito!

Tu és miscigenado

Preto, branco, amarelado!

Um carnaval de mil cores!

Unifica tuas falas

Que é destruindo as senzalas

Que a gente cala os senhores!

Publicado em: 21/11/2019