"A ideia, que parecia absurda, da renda universal, não sei mais se é absurda"

Para ex-presidente, a mudança da forma de produção, que aumenta sem a criação de emprego ou renda, levará à necessidade de políticas de distribuição de renda.

Fernando Henrique Cardoso Wilson Dias/Agência Brasil

Do Terra - Por Marcelo Godoy, Paula Reverbel e Pedro Venceslau, do Estadão

 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lançou recentemente o quarto último volume de seu Diários da Presidência. Para ele, a crise das representações nos dias de hoje só será resolvida por meio da participação popular. O ex-presidente acredita ainda que a mudança da forma de produção - que aumenta sem a criação de emprego ou renda - levará à necessidade de políticas de distribuição de renda. Só assim seria possível reafirmar valores como os da liberdade e da igualdade, vindos da Revolução Francesa. Eis aqui a sua entrevista.

Presidente, a República completa 130 anos. Quais os valores o senhor pensa que devem ser reafirmados por todos e quais devem ser acrescidos aos que fundaram a nossa República?
Nós não sabemos ainda como vamos organizar a relação entre a população e o poder. A democracia organizou essa relação por meio dos partidos, da representação, das grandes discussões, Rousseau. Isso está em crise. O que está em crise é tudo o que foi construído desde o século 18. Mudou o quê? Mudou a forma de relação das pessoas e a forma de organização da produção. Qual vai ser a expressão política disso? Por que está em crise nos Estados Unidos, na Itália e no Brasil? Onde não está em crise? Onde tem ditadura, onde não tem liberdade. Onde tem liberdade, as pessoas não estão contentes com as organizações políticas. Eu não jogo fora os partidos e as representações. Estou simplesmente dizendo que nós temos de levar em consideração que os partidos e a representação foram postos em causa pela capacidade que as pessoas têm de reagir por elas próprias. E nós não temos solução pronta para isso.

A educação seria uma forma de resolver isso?
A educação faz parte desse processo de autonomização. O que nós estamos assistindo é a uma certa autonomização, apesar de haver uma certa personalização da política. Ao mesmo tempo você tem autonomização e personalização porque as estruturas organizadas intermediárias estão ficando bamboleantes, estão balançando. Qual era minha discussão geral até hoje? Muita gente não está percebendo é que nós estamos em outra época, na época da globalização. Escrevi minha teses de livre-docência sobre o empresariado nacional. Naquela época, em 1963, o livro foi publicado em 1964, naquela época você tinha a ideia de que íamos repetir a história da Europa. A burguesia que tinha interesses próprios e ia se aliar ao povo contra o imperialismo e o latifúndio. Quando fui fazer pesquisa, não tinha nada disso. Já havia um começo de integração muito maior do que se imaginava. Quando escrevi um livro mais tarde, no Chile, Dependência e Desenvolvimento, nós não sabíamos que estávamos escrevendo sobre globalização. Não havia a palavra. A palavra multinacional, que se usa banalmente hoje, foi criada em 1971. Eu escrevi o livro em 1967. Você estava tateando para entender o que estava acontecendo. Quando eu cheguei ao governo, a globalização era uma realidade, mas o pessoal achava que não era; a esquerda não entendia e dizia que isso era neoliberalismo.

Leia a entrevista na Íntegra aqui: 'A ideia, que parecia absurda, da renda universal, não sei ...

Publicado em: 17/11/2019