Brasil se distancia de consensos dos direitos humanos

Sem fazer lições de casa, Brasil se distancia de consensos dos direitos humanos. O levante contra a candidatura brasileira na ONU e a publicação do ministro da Educação contra uma jornalista podem ser lidos, no contexto político, como sintoma e causa.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, em café da manhã com jornalistas Foto: Jorge William / Agência O Globo

Época - Por Giulliana Bianconi

 

Na mesma semana em que quase 200 organizações da sociedade civil se reuniram para lançar manifesto contra a reeleição do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU para o período de 2020-2022, mais uma jornalista foi atacada nas redes sociais com discursos violentos e misóginos após uma voz do governo Bolsonaro, a do ministro Abraham Weintraub (da Educação), expor o nome da profissional na rede social Twitter e desqualificá-la. A mensagem que alavancou os ataques contra ela foi publicada após a insatisfação do ministro com uma reportagem veiculada no Estado de S. Paulo.

Ao colocar a repórter no centro da mensagem (ou seria fogueira?), Weintraub protagonizou um ataque à pessoa física, e não ao veículo ou mesmo à reportagem. Se o levante contra a candidatura brasileira na ONU e a publicação do ministro contra a jornalista são dois fatos que parecem distantes e não-relacionados, podem ser lidos, no contexto político, como sintoma e causa. São atitudes como essa de Weintraub que reforçam a leitura de que o Brasil está na contramão de sua tradição universalista que reconhece os direitos humanos como proteção para todos. 

A liberdade de expressão é um direito consagrado como essencial à realização e proteção de todos os direitos humanos, e no dia a dia do trabalho de cada jornalista é fundamental que não haja intimidação por quaisquer partes, principalmente pelo governo - que deveria resguardar tais direitos - no sentido de não tolher essa liberdade. É isso que garante que a informação de interesse público chegue ao público e que o jornalismo cumpra a sua função social. Mas o que se vê no momento é bem diferente: há um sinal verde para o ataque direto a jornalistas, que inevitavelmente aciona o ativismo conservador, esse que tem sua vertente mais odiosa nas milícias digitais. Quando se trata de um “alvo” mulher, os ataques vêm carregados de xingamentos e ameaças que denotam desprezo pela condição de mulher, o que é caracterizado como misoginia.

Jornalistas têm sido tratados como inimigos, adversários, independentemente do gênero, quando não seguem a narrativa “oficial”. A intimidação vale também para pesquisadoras, educadoras, ativistas. Uma das principais referências da pesquisa em direitos reprodutivos e humanos no Brasil, a cientista Débora Diniz, se sentiu em risco real e, mesmo tendo denunciado os ataques à polícia, decidiu sair do país para não lidar diariamente os ataques das milícias virtuais e seguir trabalhando e produzindo conhecimento à distância. 

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Publicado em: 13/10/2019