Eternamente ungidos

Por Cássio Rizzonuto

Se é verdade que de grão em grão a galinha enche o papo, também é verdade que de exclusão em exclusão dos artigos que compõem o pacote anticrime (enviado pelo ministro Sérgio Moro – Justiça -, para a Câmara), os deputados irão derrubar de vez a intenção de reduzir a violência e os níveis de criminalidade do país.

Desde que Bolsonaro assumiu a Presidência, e Moro, a Justiça, os homicídios tiveram queda de quase 25%! Mas boa parte dos deputados não quer nem saber disso. Parece que, a população, também não. Se quisesse mesmo reduzir crimes, roubos e bandalheira, não teria mandado essa gente para o Congresso Nacional, a fim de fazer leis.

Os ilustres congressistas, notadamente os do Rio de Janeiro, têm atacado Sérgio Moro com tanta virulência que fica a impressão de que a cada redução da criminalidade a violência dos representantes do povo fica mais evidente.

Quando Glauber Braga (PSOL-RJ), chamou sem provas o ministro da Justiça de “juiz corrupto” e “ladrão”, numa das audiências da Câmara, tornou-se claro para os mais atentos que o titular da Justiça tem incomodado muito com essa história de aumentar penas e punir quem comete barbaridades na convivência social.

O Brasil é o paraíso da canalhice e da nenhuma vergonha. Dia desses, a Folha de S. Paulo (que se transformou em porta-voz do PT), noticiou que o “ex-presidente Lula já leu dezenas de livros” na cadeia, para reduzir sua pena prisional. Imagine-se!

O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que jura ser amante da paz e visceralmente contra qualquer arma de fogo, só circula pelo país com seguranças armados até os dentes, cada qual portando armas modernas. Mas não admite que nenhuma cidadã ou cidadão disponha de arma de fogo em casa para prover sua própria segurança.

Freixo apresentou emenda, aprovada, que “impede que condenados, por fazerem parte de organizações criminosas, tenham direito a progressão de regime de cumprimento de pena”. Quer dizer: o sujeito comete o crime, vai preso, mas tem uma série de vantagens que, no final, recompensa o roubo, o assassinato, qualquer tipo de crime cometido.

Não foi só isso: os deputados “proibiram a instalação de escuta na casa de suspeitos à noite”. Retiraram, ainda, “autorização para que câmeras de vigilância possam ser instaladas em locais públicos, sem autorização da Justiça, por agentes de uma investigação”.

A população deve concordar, pois é quem os envia para o Congresso Nacional e os perde de vista depois de eleitos. Se todos acompanhassem o “trabalho” que tais representantes realizam, certamente os eleitores cuidariam de ser mais cuidadosos nas disputas seguintes.

O pacote anticrime de Sérgio Moro é, hoje, pálido reflexo do que foi remetido ao Congresso e se mostra quase impossível de ser reconhecido. Veja-se, também, a recente lei de abuso de autoridade, em grande parte vetada por Bolsonaro: o deputado Ricardo Barros, ex-ministro da Saúde, articula abertamente a derruba dos vetos.

Barros, acusado de improbidade administrativa, é aquele que o Ministério Público Federal pediu à Justiça fossem bloqueados bens no valor de R$ 20 milhões! Mas vai eleição, vem eleição, todos esses ilustres personagens são eleitos. Até quando? Será que a população irá deixar de elegê-los um dia?

Publicado em: 19/09/2019