Penico de porcelana

Por Maciel Melo*

A noite parecia não ter fim.

Lá nos cafundós do Sertão onde nasci, não havia luz elétrica. O Brasil ainda engatinhava quando fui gestado por uma paraibana de Sumé. Nasci raquítico, pirralho, magro, só tinha o couro e o osso.

Minha mãe fez um rosário de contas, pendurou no meu pescoço, depois, uma rezadeira me benzeu com três galhos de arruda, e cá estou eu, malazarteando a vida.

O Rosário é tradicionalmente dividido em três partes iguais, com cinquenta contas cada e que, por corresponderem à terça parte, foram chamadas de Terço. Cada terço compreende um conjunto especial de cinco mistérios: os Mistérios Gozosos, os Mistérios Dolorosos e os Mistérios Gloriosos. Pelo menos duas vezes por semana nos reuníamos para rezar o terço. Depois, os candeeiros se apagavam e aí, era aquela folia: um monte de menino dormindo tudo junto, que maravilha, o escuro era o motivo para ficarmos juntinhos, e eu sempre aproveitava a desculpa de ter medo das trevas para abraçar meus irmãos mais velhos.

E vinham as fábulas, as histórias de Trancoso, de malassombro, as charadas, as adivinhações, eram o passatempo até o sono chegar.

Lembro de uma noite em que, durante a madrugada, levanto para ir “lá fora”, na ponta dos pés para não acordar os outros. De repente, tropeço num troço muito peculiar: um penico. Era um vaso em porcelana com alças, onde as mulheres se despejavam durante a noite; os homens, iam no terreiro. E aí foi aquela danação, o peste estava cheio, e aí saí peitando tudo que havia pela frente, até achar o fósforo, acender o candeeiro, e chegar na porta.

Acordei a casa inteira. Nunca fui tão xingado como nesse dia.

Mas o tempo foi passando, e eu cresci, e fui para o mundo, e me tornei homem, e virei viajante, e hoje, toda vez que vou a um banheiro de hotel e vejo aqueles vasos de louça, branquinhos, limpinhos, alguns até bem cheirosos, lembro do penico de porcelana lá de casa.

*Cantor e compositor

Publicado em: 23/05/2019


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