Golpes e Arranjos

Por Márcio Accioly

Numa entrevista ao jornal El País, em setembro do ano passado (pleno auge da campanha presidencial), o ex-ministro e condenado a mais de 30 anos de cadeia, Zé Dirceu, afirmou que o PT tomaria o poder “o que é diferente de ganhar uma eleição”, no caso de o partido ser bem sucedido nas urnas daquele ano, mas não levar.

Ele respondia a questão formulada pelo jornal, fato que causou enorme repercussão. As pessoas queriam saber de que maneira o poder seria tomado pelo PT, de que exército ele dispõe, se iria empregar táticas de guerrilha, etc. Agora, com as ações de criminosos no Ceará, circula pela internet aquela entrevista de Zé Dirceu com ilações a respeito de seu possível envolvimento numa “tomada de poder”.

Muitos alegam que a bandalheira poderá se espalhar por outros estados, exigindo ações do governo que iriam gerar tumulto permanente. 

Isso, numa fase confusa da vida nacional, em que quadrilhas se encontram instaladas em várias instâncias de nossas instituições e a gritante falta de impunidade estimula bandidos comuns e assaltantes dos cofres públicos a agirem livremente.

Uma das coisas que menos se entende é o fato de um condenado pela Justiça como Zé Dirceu circular livremente país afora, fazendo pregações que bem entende. Ele foi solto pelo STF, tendo o presidente do órgão, Dias Toffoli, determinado a retirada de tornozeleira eletrônica. Toffoli foi militante e advogado do PT durante anos e anos, tendo sido funcionário de Zé Dirceu quando este era ministro-chefe da Casa Civil.

Contra o presidente do STF existe a gravíssima acusação de que recebe mesada de R$ 100 mil do escritório de advocacia eleitoral que está no nome de sua mulher. O ministro nunca respondeu a acusação formulada pela revista eletrônica Crusoé, fartamente documentada e apontando, ainda, ex-gerente de banco que trabalha exclusivamente para ele, cuidando de suas aplicações financeiras.

O Brasil é “administrado” por quadrilhas que o mergulham num clima de devastadora tensão, a explodir quando menos se esperar por conta de infindáveis carências. É corda que não irá se partir apenas do lado mais fraco, mas no seio de toda a sociedade, criando cenário de improvável reparação. Ninguém aguenta mais pagar essa conta.

As pessoas percebem claramente que a corrupção se estabelece e prospera nos mais variados escalões, com os envolvidos apostando na ausência de punição e conscientes de exercerem poder absoluto. Foi esse clima que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República, já que não emergiu do caos estabelecido nenhum outro nome que merecesse confiança.

O ex-ministro Zé Dirceu pode não ter nada a ver com a desordem que tem dominado o Ceará, mas sua declaração a respeito de tomada de poder colocou pulga na orelha de muita gente. E, agora, em fevereiro, quando o Judiciário retorna, é provável que ele seja preso e comece a cumprir, finalmente, a longa sentença a que foi condenado. De qualquer forma, sua entrevista só fez piorar a própria situação.

Publicado em: 11/01/2019