Para ser ouvida e respeitada em Davos

CARLOS CHAGAS

 Com a presidente Dilma de volta a Brasília, chegou a hora de o governo passar da teoria à prática. Depois das exortações de Natal e Ano Novo, a respeito de a economia irem bem, apesar da guerra psicológica de certas elites, abre-se a oportunidade da demonstração.

Que tal, por exemplo, para estimular investimentos externos, apertar os parafusos fiscais? Porque lá fora muitos potentados deixam de aplicar seus recursos no Brasil por conta da desorganização nas contas públicas e nos gastos do governo. Como seria suicídio cortar despesas sociais, forçar demissões e aumentar impostos, o caminho que se abre é o oposto: enquadrar quantos burlam o fisco, enviam centenas de milhões para paraísos fiscais e remetem lucros inexistentes para suas matrizes. Demonstrar ao investidor estrangeiro que somos um país sério, disposto a poupar internamente através da devida cobrança a quantos fazem de nós joguete de suas falcatruas, podendo, assim, definir a devida remuneração aos que se dispuserem colaborar com nosso desenvolvimento.

Pode parecer uma contradição, mas é por aí que Dilma se credenciaria a ser ouvida e respeitada no fórum de Davos, para onde se dirigirá dentro de poucos dias. Se ficar apenas na promessa de que nos constituímos num paraíso para os especuladores, estará estimulando a vigarice. Mas se demonstrar que quem vier de boa fé acabará saindo satisfeito, melhor para todos.

Há muita coisa a mais no dever de casa a ser feito este ano, sem prejuízo das metas eleitorais da reeleição e da manutenção de forte base parlamentar na Legislatura a se iniciar ano que vem. Por exemplo: escolhendo novos ministros nos partidos que apóiam o governo, necessidade fundamental para a vitória nas urnas, mas não aceitando a imposição de vigaristas e incompetentes. Selecionando, no arraial de cada um, gente séria e honesta, que sempre será possível encontrar, mesmo com lupa e paciência.

Em suma, um objetivo da presidente é a reeleição, mas outro, maior, será coroar seu primeiro mandato com uma performance que faça do segundo uma continuação necessária. Além de manter a política assistencialista, precisará avançar em iniciativas em condições de garantir a ascensão dos assalariados a novos patamares sociais. Quais? A cogestão, a participação dos trabalhadores no lucro das empresas, o restabelecimento de direitos suprimidos ao longo dos últimos anos, como a estabilidade no emprego, um salário-família real, até um salário mínimo acorde com a Constituição, bem como a proibição de demissões imotivadas, como a que acaba de fazer uma montadora multinacional. Para isso existe o Estado, jamais para proteger interesses elitistas e escusos.

Publicado em: 06/01/2014