A raposa, as uvas e os cães

CARLOS CHAGAS

É bom lembrar que o petróleo não é mais nosso desde os tempos do governo Ernesto Geisel. O mais nacionalista de nossos generais cedeu ao império das circunstâncias e enviou ao Congresso projeto de emenda constitucional admitindo os chamados contratos de risco, entre empresas estrangeiras e a Petrobras. De lá para cá, em especial no governo Fernando Henrique, foi uma farra. Assim, lutar pelo slogan de que o petróleo é nosso parece um tanto anacrônico, ainda que devesse ser. A presidente Dilma rejeita a acusação de que privatizou o pré-sal, talvez porque as jazidas já estivessem à disposição do capital estrangeiro faz muito tempo.

O grave na novela do leilão do Campo de Libra é que o petróleo a ser extraído daqui a cinco anos permanece guardado pela frota da Marinha dos Estados Unidos designada para o Atlântico Sul. Eles tem a posse e no dia em que bem entenderem, terão a propriedade. Sendo assim, só na teoria entenderemos que 85% da renda futura ficarão com o Brasil. Na prática, as coisas poderão ser diferentes. Nem a China, nem a Holanda, Inglaterra e França dispõem de meios para defender o que arremataram. Muito menos o Brasil. Parece remota a perspectiva de entrar no tesouro nacional esse “fabuloso montante de mais de um trilhão de reais” em 35 anos.

Enquanto olhamos para as uvas obrigatoriamente ainda verdes, patrulhadas pelos cães, esquecemos da riqueza que já estaria dando amplos frutos se os governos recentes não a tivessem desprezado. Fala-se do etanol que poderia estar sendo produzido aos montes num país que dispõe de terra, água e sol. Comprimido entre o interesse canhestro dos usineiros e a má-vontade da indústria petrolífera internacional, deixamos o tempo passar sem reação, muito menos empenho.

Publicado em: 24/10/2013